A mudança no modelo de crescimento econômico da China

28 March 2013


No contexto de mudança do poder central na China, o autor analisa os novos rumos da economia chinesa em seu esforço de transição para um modelo de crescimento comprometido com o desenvolvimento sustentável.

A China, segunda maior economia do mundo, está entrando em um período de ajuste em seu modelo de crescimento com vistas ao desenvolvimento sustentável. Essa mudança afetará não somente seu desempenho econômico, mas também, em alguma medida, o crescimento global. Nesse contexto, a nova liderança chinesa busca um modelo de crescimento mais lento, porém sustentável, o que beneficiará a própria China e o mundo – e, para atingir esta meta, deverão ser adotadas reformas que extrapolam a área econômica.

O legado misto de Hu Jintao

As conquistas econômicas da era Hu Jintao são um bom ponto de partida para a nova liderança chinesa. Uma das maiores contribuições da gestão de Hu foi ter iniciado uma ampla transformação do crescimento econômico da China.

Em 2011, o produto interno bruto (PIB) chinês alcançou 47,3 trilhões de yuans, com melhorias significativas em infraestrutura, urbanização e inovações científicas importantes, como sondas espaciais tripuladas, sondas tripuladas em alto-mar, supercomputadores e trens de alta-velocidade. De acordo com estatísticas do Banco Mundial, em 2011, a China transformou-se em um país de renda média, com um PIB per capita de US$ 5.432. O sistema de previdência social foi bastante aprimorado, proporcionando um ambiente favorável para o aumento da demanda doméstica como vetor de crescimento. Ainda, os desequilíbrios regionais foram parcialmente resolvidos pela estratégia de expansão Ocidental em curso.

Outro aspecto da era Hu para o qual vale a pena atentar é a manutenção de uma economia aberta para o mundo externo. Embora não sejam garantidas às empresas estrangeiras condições iguais de concorrência com empresas domésticas, seus negócios na China ainda são lucrativos. Nos últimos anos, a China manteve-se como um dos principais destinos dos investimentos estrangeiros diretos. Ao mesmo tempo, por meio da estratégia de internacionalização, as empresas chinesas construíram laços mais estreitos com o resto do mundo, investindo fortemente no exterior. As relações exteriores econômicas da China vão além de seus países vizinhos e do mundo desenvolvido, alcançando também o “Sul global” – em especial África e América Latina. No enfrentamento da crise financeira desde 2008, a China foi capaz de manter uma economia relativamente saudável, bem como logrou internacionalizar sua moeda dentro de um processo gradual.

Apesar dessas conquistas, existem desafios como altas taxas de investimentos, distribuição desigual da renda, uso intensivo de recursos, aumento no preço dos imóveis, custos trabalhistas e questões ambientais. Todos estão essencialmente ligados à natureza desequilibrada, descoordenada e insustentável do atual modelo de crescimento. Considerando o modelo econômico regional desequilibrado da China, a lacuna entre as cidades e as zonas rurais e o alto coeficiente de Gini, um número cada vez maior de economistas vem se dedicando a investigar e debater formas para evitar a armadilha da renda média. As atenções estão igualmente voltadas à eficiência ambiental das atividades econômicas e à qualidade de vida dos trabalhadores migrantes. O atual modelo de crescimento, caracterizado por alto investimento, alto consumo, alta poluição e baixa efetividade se torna cada vez mais insustentável.

Estratégias da nova liderança

Como membros importantes do governo de Hu Jintao, Xi Jinping e Li Keqiang elaborarão sua estratégia de desenvolvimento econômico de forma a dar continuidade aos ajustes iniciados por Hu. Uma das grandes tarefas de Xi e Li será cumprir o 12º Plano Quinquenal (2011-2015). Ao longo desses cinco anos, é preciso que a China mantenha o crescimento econômico – embora em um ritmo mais lento[1] – atrelado ao avanço da industrialização, urbanização, informatização, modernização da infraestrutura e globalização econômica. O 12º Plano Quinquenal dá atenção especial ao serviço público, à proteção ambiental e à qualidade de vida da população, tendo em vista que as diferenças de desenvolvimento entre as zonas urbana e rural e entre as regiões do país são enormes, assim como as disparidades de renda entre os indivíduos.

Ademais, a nova liderança do Partido Comunista da China (PCC) fortaleceu suas atividades anticorrupção e acentuou a mudança no estilo de trabalho. Com isso, o Conselho de Estado planeja transformar as funções governamentais em nível ministerial, com vistas a garantir o papel fundamental do mercado na alocação dos recursos e a possibilitar que organizações sociais desempenhem melhor seu papel de gerenciamento de questões sociais.

O 18º Congresso Nacional do PCC enfatizou a importância da transformação do modelo de crescimento econômico: a nova estratégia de desenvolvimento será pautada na otimização da taxa de utilização dos recursos e na ampliação do consumo de energias renováveis. A ordem é distribuir a riqueza de forma mais sensata ao invés de simplesmente gerar riqueza, a fim de que o crescimento econômico possa ser mais sustentável. O governo trabalhará para assegurar que a renda real per capita para residentes de zonas urbanas e rurais aumente concomitantemente ao crescimento econômico[2].

Assim, a otimização industrial, com ênfase na inovação, será a prioridade máxima da China. De acordo com o governo chinês, a denominação “fábrica do mundo” não é mais considerada apropriada para o país, tendo em vista que implica intenso consumo de energia e recursos e altos índices de emissão de gases tóxicos. Dito de outra forma, a China precisa de mais produtos “inovados na China”, e não apenas “produzidos na China”.

A China dispõe de condições favoráveis para constituir uma economia orientada pela inovação, tais como sua crescente solicitação de registro internacional de patentes, elevada produção científica na área tecnológica, exportações de alta tecnologia e investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Nessa nova fase, as indústrias de alta tecnologia – entre as quais, aquelas de tecnologia da informação, biológicas, de novos materiais, aeroespaciais e marítimas – terão prioridade. O papel das empresas como principal fonte de inovação será fortalecido, e os direitos de propriedade intelectual serão aperfeiçoados e mais rigorosos. Será dado apoio governamental a empresas com direitos de propriedade intelectual independentes, marcas conhecidas e competência internacional, a fim de melhorar a capacidade local de P&D.

Como parte da estratégia de desenvolvimento econômico da nova liderança do Partido, a criação de indústrias de serviços modernas será acelerada. Com o aprimoramento e a transformação das indústrias tradicionais, as oportunidades de emprego diminuirão, e o setor de serviços deverá ser capaz de gerar mais postos de trabalho para a enorme população chinesa em um futuro próximo. À medida em que mais camponeses tornam-se cidadãos, o setor de serviços terá um espaço ampliado. A proporção de valor agregado da indústria de serviços de alta especialização no PIB aumentará de 10,6% em 2007 para mais de 13% em 2015.

O novo governo também planeja direcionar especial atenção ao desenvolvimento de indústrias de alto valor agregado e do setor de serviços nas províncias do interior da China, sem, no entanto, abandonar uma agenda pautada em segurança alimentar e proteção ambiental para essa porção territorial do país. A proposta do novo governo é que todas as regiões da China experimentem novas fases de desenvolvimento. De modo semelhante, o novo governo continuará a modernizar a infraestrutura nacional por meio da aceleração da construção de redes de trens de alta velocidade, vias expressas, redes inteligentes de geração de energia e redes de recursos naturais, com o objetivo de conectar melhor o território nacional.

O consumo doméstico adquire importância central na estratégia do novo governo: aqui, a urbanização tem sido tratada como a maior força motriz não somente do aumento na demanda doméstica, como também da redução na desigualdade de renda. A taxa de urbanização da China alcançou 52,6%, mas ainda há um longo caminho adiante para a China alcançar o índice dos países desenvolvidos (80%). Contudo, a estratégia do novo governo enfatiza a qualidade ao invés da velocidade da urbanização e da quantidade de cidades: por exemplo, realizar a transição do campo para cidades com a geração de novos empregos e o acesso à previdência social e à educação. Encontrar meios para resolver a questão da migração em massa de trabalhadores para metrópoles tornou-se um desafio considerável, que requer inovações institucionais como reformas nos sistemas de registro imobiliário, agrário, fiscal e de acesso ao ensino superior. O fator chave na nova estratégia de urbanização é a transição do camponês para o cidadão.

Nesse sentido, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) será adotado como referência para mensurar o bem-estar da sociedade. Em 2008, o IDH da China foi de 0,781, e espera-se que alcance 0.84 em 2015. Com o aumento da capacidade governamental de gerenciar a sociedade, haverá a expansão dos serviços públicos e da cobertura básica da previdência social. Os serviços públicos básicos cobrirão tanto cidadãos urbanos quanto rurais. O crescente hiato entre a população de zonas urbanas e rurais será controlado, assim como a disparidade no acesso aos serviços públicos nessas áreas.

Implicações para o mundo

Embora a estratégia econômica da nova liderança chinesa tenha um foco doméstico, isso não significa que a China alcançará seus objetivos fechando suas portas para o mundo. Ao contrário, a China avançará em seus esforços de abertura econômica e continuará comprometida a manter uma economia aberta para o mundo e a perseguir um modelo de cooperação econômica com o resto do mundo que seja mutuamente benéfico.

As importações preferenciais da China serão de tecnologia avançada, de equipamentos chave, bem como de terras raras e de energia. Mais investidores e trabalhadores chineses irão para o exterior para encontrar oportunidades de desenvolvimento. A China provavelmente atingirá a convertibilidade básica da balança de capitais nos próximos dez anos. Uma China forte e comprometida com as normas contribuirá mais para uma economia mundial saudável.

A comunidade internacional deve manter a confiança no desenvolvimento econômico sustentável da China. A tecnologia relativamente pobre e a disparidade na distribuição da renda significam que há um grande potencial para avançar na fronteira tecnológica e na limitação do consumo. Para alcançar o desenvolvimento sustentável, a economia chinesa deverá diminuir seu ritmo, o que influenciará a economia mundial. No entanto, uma economia mais saudável e sustentável, apesar de mais lenta, será uma melhor opção para todos nós.

* Diretor-assistente do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais, subgrupo dos Institutos de Shanghai para Estudos Internacionais.

[1] As taxas anuais de crescimento econômico devem permanecer em torno dos 7,5%.

[2] A meta estipulada no 12º Plano Quinquenal é de que o PIB e a renda per capita sejam dobrados até 2020, comparativamente aos valores registrados em 2010.

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