A reação dos BRIC à crise econômica

25 November 2011

A atual crise econômica teve início no mercado hipotecário de alto risco dos Estados Unidos da América (EUA) em 2007 e alastrou-se rapidamente para a Europa, adquirindo proporções globais. O impacto sobre o comércio foi avassalador: o comércio global caiu mais do que a produção mundial e bem mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) global[1]. Este artigo traça algumas das principais reações dos países em desenvolvimento (PEDs) à crise, com destaque para as políticas comerciais dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China)[2].

Ainda no início de 2008, alguns analistas argumentavam que os PEDs seriam fortemente atingidos pela crise, apesar de seus setores financeiros estarem relativamente pouco integrados aos dos países desenvolvidos (PDs). De fato, alguns efeitos foram imediatos e dramáticos, possivelmente amplificados pelo fator psicológico, já que a crise surpreendeu o mundo – sobretudo porque os PDs foram os mais afetados. Com a fuga de capital, as bolsas dos países emergentes despencaram. Os fundos disponibilizados pelas grandes instituições financeiras em suas subsidiárias localizadas em mercados emergentes foram reduzidos significativamente. Um pouco mais adiante, a queda na demanda por commodities reduziu os preços e levou à contração nas exportações dos países emergentes para os países avançados, tanto de combustíveis quanto de outras matérias primas.

No entanto, em finais de 2009, percebeu-se que a crise não havia surtido o mesmo impacto sobre os mercados emergentes do que sobre os industrializados. Com base nesse quadro, alguns analistas chegaram a elaborar a tese da desassociação econômica (decoupling thesis). Nessa mesma toada, a revista The Economist afirmou que haveria uma verdadeira bifurcação no sistema internacional: os países emergentes seriam capazes de crescer ou contrair de forma autônoma, e não apenas sob a influência dos países ricos[3]. De fato, alguns países emergentes pareciam exibir uma nova adaptabilidade e – em pelo menos alguns casos – maior capacidade de recuperação face à conjuntura de crise. Os BRIC, por exemplo, conseguiram retomar o crescimento com relativa rapidez.

Em parte, o impacto da crise nos mercados emergentes foi menor do que sobre os industrializados devido a condições pré-existentes. Por exemplo, os sistemas financeiros dos países emergentes eram relativamente menos sofisticados e apresentavam maior grau de regulação. Quando a crise eclodiu, os instrumentos financeiros mais exóticos e de alto risco não tiveram o mesmo efeito nos mercados emergentes, que estavam mais insulados em relação às oscilações. No âmbito comercial, entretanto, o período anterior à crise havia se caracterizado por uma maior integração, refletida no aumento do volume de comércio global e da participação dos países emergentes neste. Portanto, no âmbito comercial, a crise vem surtindo efeitos e reações bastante complexas.

O impacto da crise nos BRICS

Mesmo tendo sofrido menor impacto do que os PDs, os países emergentes também vêm implementando políticas em reação aos efeitos da crise. É possível identificar duas tendências principais: o grau de intervenção (bem menor que nos PDs) e a diversidade de respostas. Entre os países do G-20, a escala da intervenção feita pelos PDs foi muito maior (tanto em termos absolutos quanto relativos ao PIB) em todas as categorias de intervenção, à exceção de certas medidas de apoio à liquidez oferecidas pelos bancos centrais[4].

Ademais, nota-se uma enorme heterogeneidade nas políticas implementadas pelos PEDs em reação à crise – diversidade esta que também pode ser verificada entre os BRIC. Em parte, essa variação pode ser explicada pelo fato de que estes países não foram afetados pela crise da mesma forma. Afinal, as fontes de crescimento dos BRIC divergem. Em matéria de comércio, essa heterogeneidade pode ser exemplificada pelas exportações: Brasil e Rússia dependem mais de commodities e combustíveis, respectivamente, enquanto Índia e China devem o seu dinamismo em boa parte aos setores de manufaturados e serviços.

O grau de exposição à economia global – e, portanto, a choques sistêmicos – tampouco é uniforme entre os países BRIC. Índia e Brasil estão relativamente insulados do comércio global, pois seu crescimento depende mais da demanda doméstica do que do comércio e investimento estrangeiro. No caso da Índia, onde o setor de serviços respondia por 31% das exportações, o impacto foi ainda menor. A Rússia não teve a mesma sorte, em parte devido à elevada participação do petróleo (que passava por um boom justamente quando a crise teve início) em sua pauta de exportação[5]. Em 2009, a economia russa retraiu em 7,8%, e o país sofreu grandes perdas comerciais. A China tampouco ficou imune: em um primeiro momento, a exportação de manufaturados chineses passou de 36% do PIB em 2007 para 24% em 2009.

Reações à crise

Mesmo com a contração da economia russa, os BRIC expandiram cerca de 4,3% em 2009. O crescimento do agrupamento foi puxado por China e Índia. Em 2010, o PIB conjunto dos BRIC cresceu 8,8%, mas esta estatística esconde variações entre os membros do agrupamento no que diz respeito a reações à crise. Por exemplo, China e Rússia – que estavam bem mais expostas às oscilações do mercado global – lançaram pacotes de apoio ao setor financeiro. Em novembro de 2008, o governo chinês anunciou que injetaria US$ 586 bilhões para recuperar a economia chinesa no primeiro trimestre de 2009. O pacote compreendia medidas fiscais, tais como financiamento adicional para investimentos em infraestrutura de grande porte, redução da carga tributária para as indústrias mais afetadas e uma série de políticas monetárias anticíclicas. Entre setembro e dezembro de 2008, o banco central da China reduziu as taxas de juros cinco vezes. A Rússia injetou cerca de US$ 120 bilhões para apoiar a recuperação de seu setor financeiro após o colapso da bolsa em 2008.

No que toca ao comércio, alguns países buscaram facilitar os fluxos de bens e serviços mediante a redução de tarifas e impostos comerciais – como nos casos indiano e chinês. Assim como a Índia, o Brasil lançou mão de políticas para facilitar o acesso ao crédito à exportação e, atualmente, estuda a criação de um Eximbank, que seria dedicado exclusivamente a financiar as exportações e a produção para o mercado exterior. Contudo, o efeito agregado de tais medidas ainda não está claro. Ao mesmo tempo, foram implementadas medidas de natureza mais restritiva, mas somente será possível analisar o grau de abertura de cada país no futuro, com comparações a níveis pré-crise.

Muitos países emergentes reforçaram suas políticas comercias por meio de instrumentos de defesa comercial, entre eles práticas antidumping, direitos de compensação e medidas de salvaguarda – medidas que têm como principal alvo os manufaturados chineses. Vale lembrar que, durante o período anterior à crise, havia um movimento quase contínuo na direção da abertura de mercados. À exceção de alguns bolsões de protecionismo na agricultura e alguns setores de mão de obra intensiva (têxteis e roupas), os PDs exibiam níveis de protecionismo historicamente baixos. Muitos PEDs também vinham removendo barreiras unilateralmente ou no âmbito de acordos comerciais. Em contraste com a última grande recessão econômica, o segundo choque de preço do petróleo e com a desaceleração da inflação no final da década de 70, desta vez, o colapso comercial gerou menos protecionismo do que se supunha[6]. Em parte, isso pode ser explicado pela globalização da produção, que limita os incentivos para que governos aumentem o preço dos produtos de exportação; e pelos efeitos restritivos das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as práticas protecionistas. Algumas exceções aparecem em setores como o automotivo, no qual medidas de apoio bastante específicas – por exemplo, discriminação contra automóveis produzidos no exterior – têm sido implementadas em países como a Rússia e, mais recentemente, no Brasil.

Os PEDs, inclusive os BRIC, têm recorrido a políticas domésticas que afetam o comércio, tanto do lado da oferta quanto da demanda. Essas medidas incluem o aumento de gastos públicos que visam a estimular a demanda. Houve, ainda, medidas fiscais e regulatórias para apoiar a infraestrutura privada, além de incentivos para inovações eficientes. Por fim, observaram-se novos estímulos à entrada de investimento estrangeiro direto (IED), subsídios a produtores e facilitação do crédito[7].

As estratégias de longo prazo também devem influenciar a balança e composição comerciais de alguns países. Por exemplo, a China está tratando de modificar a sua pauta de exportações de forma a concentrar-se, cada vez mais, nos produtos de maior valor agregado, tais como chips e automóveis. Algumas dessas medidas vêm sendo reforçadas com a atual crise na zona do euro. Em agosto de 2011, frente a um cenário internacional ainda marcado pela incerteza, foi lançado o Brasil Maior, plano industrial que, na prática, é um programa de substituição de importações. O plano prevê a devolução de impostos e financiamento a exportadores, desoneração da folha de pagamento para setores intensivos em mão de obra e política tributária especial para montadoras. Além disso, os BRIC vêm reduzindo suas taxas de juros, em ritmos diferentes – recentemente, a Índia abandonou essa política. Os países do agrupamento também continuaram ou reforçaram a estratégia de acumulação de reservas cambiais.

Ainda é cedo para avaliar os resultados a longo prazo, mas é possível observar que, mesmo numa conjuntura de crise, o comércio entre os BRIC continua aumentando, facilitado em parte pelo uso frequente de moedas locais no lugar do dólar estadunidense. Em 2008, a China tornou-se o segundo parceiro comercial da Índia e, no ano seguinte, a China ultrapassou os EUA e tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil.

Resta saber se esse intenso fluxo de comércio implicará um aumento nos contenciosos entre os BRIC. Em 2010, exportações chinesas têm enfraquecido o setor brasileiro de calçados. Tais efeitos tendem a provocar reações e medidas de retaliação comercial: a Índia implementou medidas antidumping contra vários produtos chineses; e Moscou e Pequim enfrentam tensões com relação ao preço do petróleo vendido pela Rússia à China.

Até que ponto essas reações confirmam a tese da desassociação econômica? Alguns economistas argumentam que, além do maior grau de resistência dos emergentes, as medidas de reação à crise implementadas por esses países serão mais facilmente erguidas no caso de recuperação global do que aquelas postas em vigor pelos PDs. Se for o caso, a polarização até agora gerada pela crise pode persistir no longo prazo, confirmando as previsões de que tanto a parcela do comércio mundial quanto o PIB dos BRIC ultrapassarão os PDs.

No entanto, a crise perdura, agora em configurações novas e possivelmente mais complexas. Os países emergentes vêm demonstrando maior autonomia, tanto em suas trajetórias de crescimento quanto nas políticas de combate à crise, quando comparado a décadas anteriores. No entanto, ainda é cedo para se falar de uma verdadeira bifurcação. A economia dos dois grupos – inclusive dos BRIC – estão entrelaçadas, e a fase atual da crise, concentrada na zona do euro, pode vir a testar a resistência dos emergentes a médio e longo prazos.

* Coordenadora Geral do BRICS Policy Center e professora do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

[1] Ver: Gopinath, Gita; Itskhoki, Oleg; Neiman, Brent. Trade Prices and the Global Trade Collapse of 2008-2009. In: National Bureau of Economic Research. NBER, Working Papers No. 175, 2009. Disponível em: .

[2] Até 2001, o agrupamento era composto por Brasil, Rússia, Índia e China e era conhecido pela sigla BRIC. Com o ingresso da África do Sul em 2011, a sigla muda para BRICS. Devido ao caráter recente do ingresso sul-africano, entretanto, a análise será pautada no agrupamento anterior.

[3] Ver: The Economist. Not Just Straw Men. 18 jun. 2009. Disponível em: .

[4] Ver: OECD. Trade and Economic Effects of Responses to the Economic Crisis. OECD, 2010. Disponível em: .

[5] Os outros países BRIC produzem petróleo, mas apenas a Rússia exporta em grandes quantidades.

[6] Ver: Haddad, M.; Hoekman, B. Trading Places: International Integration after the Crisis. In: Canuto, O.; Giugale, M. (eds.). The Day After Tomorrow. Washington DC: World Bank, 2010.

[7] Ver: OECD, 2010.

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