Brasil e Argentina: a interdependência baseada nas estratégias nacionais

25 November 2011

Nos últimos anos, Brasil e Argentina têm implementado medidas unilaterais com vistas a garantir a continuidade de políticas circunscritas aos modelos econômicos que avançam no âmbito doméstico. Este artigo argumenta que, embora tais medidas não tenham abalado a tendência geral de crescente interdependência e fluxo de comércio bilateral, os conflitos gerados a partir delas resultaram em um deslocamento de mercado que favoreceu a China. Assim, longe de frisar as diferenças entre seus modelos econômicos, Brasil e Argentina devem enfatizar a complementaridade destes, com o objetivo de superar o desafio maior, que se encontra fora da região.

As recentes eleições presidenciais na Argentina levantam muitas perguntas sobre a continuidade das relações com o Brasil, além dos impactos da consolidação de ambos os modelos econômicos e da crise mundial sobre a relação bilateral – principalmente no que toca ao comércio. De fato, muitas vezes parece que as relações entre Brasil e Argentina navegam em águas turbulentas, com períodos de maior ou menor convergência no nível de prioridade que um país dá ao outro.

O certo é que, desde o início dos anos 2000, os tempos vêm mudando. Os princípios de política econômica começaram a ser questionados e revisados, e isso teve impacto direto sobre a relação bilateral. Esse processo mostrou como padrão um forte crescimento da produção nacional em ambos os países. Na Argentina, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 80% entre 2002 e 2010 e quase 50% com relação a 1998, com uma grande participação do mercado interno. No Brasil, o período compreendido por 1999 e 2010 registrou um crescimento de 109%.

Nesse contexto, ambos os países geraram níveis mais altos de interdependência. No entanto, considerando a evolução do comércio desde 2003, pode-se observar que essa crescente interdependência se refletiu num persistente déficit comercial para a Argentina, derivado do intercâmbio de manufaturas de origem industrial (MOI) e, particularmente, do setor automotriz. Em 2010, esse déficit total alcançou mais de US$ 4 bilhões (e mais de US$ 6 bilhões só no segmento de MOI) – valor este que é 6% maior que o valor registrado em 2008. Além disso, outro fenômeno digno de nota é a crescente entrada de capitais brasileiros no mercado argentino, o que fez do Brasil o quarto investidor externo nesse país, conforme fontes oficiais do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) da Argentina.

Porém, esse cenário é ainda mais complexo. Em 2010, a Argentina destinou 21% de suas exportações totais ao Brasil e 42% das exportações de manufaturas. No mesmo período, o Brasil representou 31% das importações da Argentina e consolidou-se como o principal fornecedor deste país. Do lado das importações do Brasil, em 2010 a Argentina ocupou o terceiro lugar em importância, com uma participação de 7,9% do total, abaixo dos Estados Unidos da América (EUA) (15%) e da China (14,1%), de acordo com dados do sistema Aliceweb. Ao mesmo tempo, nos últimos dois anos, a Argentina tornou-se o principal destino das MOI brasileiras. Dessa maneira, nos últimos anos, o aumento da participação das vendas brasileiras destinadas à Argentina duplicou, de 10% em 2003 para 20% em 2010.

Para construir um cenário mais provável, o rápido e eloquente panorama de crescimento do comércio entre ambos os sócios não pode ser apresentado de maneira isolada: é preciso observar as tendências sobre as estruturas produtivas, que explicam as cifras mencionadas.

No caso do Brasil, nota-se uma regressão das exportações industriais e uma classe industrial que reclama medidas para desvalorizar o real e reativar os investimentos produtivos. Por outro lado, encontra-se o interesse já criado da classe consumidora, que viu aumentar seu poder de compra nos últimos anos e que não está disposta a perdê-lo.

De fato, a economia brasileira sofre pressões, principalmente sobre o balanço de pagamentos. Com uma conta corrente estruturalmente deficitária, observou-se um recorde de mais de US$ 47 bilhões em 2010. Isso foi produto da pressão exercida principalmente pela China e pelo sudeste asiático, que obrigou o Brasil a recorrer aos mercados internacionais para financiar o déficit.

No que diz respeito ao comércio exterior, as importações – contando os primeiros sete meses de 2011 – já somam 47% mais que as importações registradas em 2010. As exportações, por sua vez, estão registrando uma tendência de “re-primarização”, tendo em vista a queda na participação das MOI nas exportações totais, estimadas em cifras de US$ 230 bilhões a US$ 250 bilhões. Para tentar mudar esse cenário, uma das últimas medidas adotadas pelo Brasil foi baixar a taxa de juros (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, conhecida pela sigla Selic) e provocar uma desvalorização do real para conferir níveis mais altos de competitividade ao setor industrial.

No entanto, a demanda doméstica continua sendo o principal condutor da expansão econômica em 2011, apesar da diminuição de sua taxa de crescimento de 10,3% em 2010 para 6,6%, no 2º trimestre de 2011. De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o nível de emprego na indústria continua crescendo, embora esse nível tenha apresentado o menor aumento dos últimos cinco anos, se somarmos os primeiros sete meses de 2011. Além disso, a taxa de desemprego no Brasil vem decrescendo desde o começo dos anos 2000. Isso reflete a solidez do mercado interno e pode ser importante para atenuar uma possível piora no cenário internacional.

Por outro lado, as cifras mostram que a Argentina é o país que menos “re-primarizou” suas exportações, de acordo com dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

No entanto, é preciso que a Argentina enfrente desafios importantes a seu modelo de re-industrialização, baseado no mercado interno e na crescente redistribuição da renda. De fato, um dos pilares do modelo – taxas de câmbio diferenciais e competitivas – vem perdendo margem de manobra especialmente nos setores estratégicos da economia (têxteis, calçados etc.), pelo aumento dos custos locais e do preço das importações.

As recentes eleições presidenciais naquele país mostraram que a vontade da maioria do eleitorado é a de continuar com as modificações iniciadas em 2003. O partido da situação, a ala kirchnerista do partido justicialista, saiu vitorioso em praticamente todo o território nacional e essa vitória também abarca o Poder Legislativo, que agora tem maioria de deputados e senadores kirchneristas. No entanto, a composição do gabinete de ministros determinará mais especificamente qual o rumo exato dado à continuidade do processo. Nesse sentido, quem ficar no comando do Banco Central, por exemplo, deverá enfrentar uma situação complicada tanto no âmbito interno quanto no externo, onde a guerra de divisas e possíveis recessões nas principais economias do mundo (e, por conseguinte, a retração da demanda) gerarão muitos obstáculos à manutenção dos indicadores macroeconômicos da Argentina.

A forma com que esses obstáculos serão superados terá impacto direto no nível de competitividade da indústria argentina e, consequentemente, sobre sua evolução nos próximos anos. Uma das alternativas é dar continuidade ao aprofundamento do processo de substituição de importações, baseado na crescente demanda interna[1].

Nesse contexto, e tendo em vista que se esperam taxas de crescimento de 3-4% para o Brasil e de 8% para a Argentina em 2011, muito provavelmente as tendências descritas se consolidem ainda mais, mesmo que isso possa gerar algum conflito setorial. Além disso, com o aprofundamento de ambos os modelos econômicos espera-se também um aumento na adoção de medidas unilaterais. No entanto, isso poderia ser usado de maneira favorável para ambos os países, se os mesmos lograrem inserir essas medidas numa estratégia para enfrentar desafios maiores, como o fenômeno China.

De fato, a realidade mostra que a participação da China vem crescendo em ambas as economias. Nas importações brasileiras, a participação chinesa saltou de 2% em 2000 para 14% em 2010; enquanto, na Argentina, a participação do país asiático passou de 4,6% em 2000 para 12% em 2010 no total de suas compras. Se não fossem as medidas adotadas nos últimos anos, as estruturas industriais dos dois países teriam sofrido impactos muito fortes na sua capacidade de incorporar valor e de gerar mais e melhores empregos. Esse cenário é agravado pela crise internacional já que o avanço da China, à luz da crise em muitos dos países industrializados, foi direcionado às economias emergentes.

Em resumo, os modelos econômicos adotados por Brasil e Argentina provocaram fortes aumentos de seus mercados nacionais e ao mesmo tempo, um aprofundamento sem precedentes das relações bilaterais comerciais. Os conflitos setoriais não parecem capazes de reverter essa tendência. Também é certo que ambos os países deverão ajustar seus modelos para manter suas taxas de crescimento nos níveis observados até o momento e isso pode provocar alguns novos conflitos.

No entanto, o grande desafio está realmente fora da região: o avanço das exportações chinesas e do sudeste asiático sobre os mercados brasileiro e argentino, agravado pela crise internacional, é um sinal de alerta. Alerta para que Brasil e Argentina, em lugar de enfatizar as diferenças entre ambos os modelos econômicos, resolvam seus conflitos comerciais, que muitas vezes são parte de uma agenda de curto prazo. Alerta para que Brasil e Argentina aproveitem a crescente interdependência de suas economias e as sinergias de seus modelos econômicos para enfrentar, de forma conjunta, o desafio asiático.

* Coordenador do Departamento de Economia Internacional da Sociedade Internacional para o Desenvolvimento Capítulo Buenos Aires.

** Coordenadora da Rede LATN, pesquisadora da FLACSO/Argentina.

[1] Em 2010, as importações aumentaram 46% em relação a 2009.

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