Brasil empresta US$ 10 bilhões ao FMI

22 June 2009

O Brasil anunciou no último dia 10 que emprestará US$ 10 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI), recursos a serem fornecidos por meio da subscrição de títulos de emissão da própria instituição. Como parte do processo de reforma e re-capitalização do FMI, a decisão de aporte de recursos é tomada em conjunto pelas principais economias do mundo em meio à crise econômica global, e visa a reforçar o papel do FMI como agente de promoção da retomada do comércio e da economia global.

É a primeira vez que o país exerce o papel de financiador do fundo. Embora faça parte do grupo dos 47 países que participam da formação do capital do FMI, o Brasil ainda não havia realizado empréstimos fora de sua cota de US$ 4,7 bilhões, superada em mais de duas vezes pelo valor do empréstimo anunciado. Segundo o presidente do Banco Central, Guido Mantega, os recursos para a subscrição dos títulos advirão das reservas internacionais do país, e não diretamente do orçamento federal. Em entrevista, Mantega explicou que grande parte dos recursos das reservas é habitualmente aplicada em títulos emitidos pelo Tesouro estadunidense. Nesse sentido, a subscrição de títulos do FMI serviria como um redirecionamento dos recursos das reservas, pois estes permitiriam que o Brasil se comprometesse com um volume menor de títulos públicos dos Estados Unidos da América (EUA).

Embora as autoridades brasileiras tenham apontado o desejo de “ajudar a comunidade internacional” como a motivação subjacente à medida, é possível vislumbrar outros fatores mais persuasivos. O primeiro está relacionado à redução do risco cambial das reservas brasileiras. Os títulos a serem emitidos pelo Fundo serão nomeados como Direitos Especiais de Saque – moeda escritural do FMI, composta por uma cesta de moedas, dentre as quais o dólar (44%), o euro (34%), a libra (11%) e o iene (11%). Ao subscrever tais títulos, o Brasil reduz sua vulnerabilidade frente ao dólar, que vem apresentando grande flutuação nos últimos meses.

O segundo – e talvez o principal – fator diz respeito ao processo de reforma da governança do Fundo. Ao se comprometer com uma participação maior no financiamento do FMI, o país adquire capital político que poderá ser de grande serventia nas negociações para a reforma da instituição. Nas palavras do próprio diretor geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, o país teria demonstrado “liderança” e “compromisso”, além de “engajamento no processo total de reforma e expansão dos recursos do FMI”. Para Strauss-Kahn, o Brasil reafirma seu papel como destacada economia emergente.

A re-capitalização do FMI constituiu uma das principais prioridades identificadas pelos líderes mundiais durante a Cúpula de Londres do G-20, realizada em abril (ver Pontes Bimestral, Vol. 5, No. 2, jun. 2009, ). Na ocasião, foi estabelecido que o FMI terá de receber aportes de até US$ 750 bilhões para fazer face à crise e possibilitar a retomada do comércio global. Deste valor, US$ 500 bilhões deverão ser aportados pelos países membros do G-20. Os EUA se comprometeram a destinar até U$ 100 bilhões ao fundo, operação aprovada pelo Congresso na última quinta-feira. A China, por sua vez, se comprometeu a subscrever US$ 50 bilhões em títulos do Fundo, e a Rússia, US$ 10 bilhões. Ainda não se sabe o valor a ser subscrito pela Índia.

Motivado por um contexto internacional em profunda alteração, o anúncio desta semana parece marcar o início de uma nova fase das relações entre o Brasil e o FMI. A contribuição brasileira, ainda que modesta quando comparada àquela de países desenvolvidos (PDs), apenas foi possível pela sensível melhora da situação cambial do país, em relação a seus parâmetros históricos. As reservas internacionais mantiveram-se elevadas (na casa dos US$ 200 bilhões), o fluxo positivo de divisas foi retomado e as perspectivas para o médio prazo são de manutenção deste fluxo, com a exploração das reservas do pré-sal. Não deixa de ser fator de grande surpresa que a posição de credor do FMI seja obtida em meio à crise financeira mais grave dos últimos 70 anos.

Reportagem Equipe Pontes

Fontes consultadas:

China Daily. Brazil joins Russia, China in eyeing IMF bonds. (12/06/09). Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2009.

Financial Post. U.S. treasuries face new rival in IMF bond. (13/06/09). Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2009.

Folha de S. Paulo. O Fundo foi ao Brasil. (11/06/09). Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2009.

O Estado de S. Paulo. Brasil emprestará US$ 10 bilhões e passará a ser credor do FMI. (11/06/09). Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2009.

O Estado de S. Paulo. 'Esta semana, eu emprestei US$ 10 bilhões ao FMI'. (13/06/09). Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2009.

O Estado de S. Paulo. O Brasil e o FMI. (14/06/09). Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2009.

The Wall Street Journal. Brazil Throws Increasing Wealth Into Geo-Political Arena. (11/06/09). Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2009.

Valor Econômico. FMI elogia "liderança" do Brasil. (12/06/09). Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2009.

22 June 2009
Brasil, Rússia, Índia e China – grupo de países conhecido pela sigla BRIC – expressaram interesse em se tornar atores centrais na política econômica global na primeira cúpula do grupo, realizada em...
Share: 
6 July 2009
Após meses de especulação, a União Europeia (UE) e os Estados Unidos da América (EUA) deram início a uma disputa contra restrições impostas pela China a exportações de diversos insumos, com a...
Share: