Competitividade na América Latina e as escolhas equivocadas do Brasil

27 March 2015

Atualmente, falar da competitividade internacional da América Latina e, sobretudo, do Brasil, envolve trilhar caminhos em terrenos movediços. Este artigo propõe uma análise comparada entre a competitividade brasileira no mercado internacional face às economias de seus parceiros comerciais na América Latina. Dentre diversas abordagens possíveis sobre competitividade internacional, os autores optaram por trabalhar com três eixos combinados: a inserção nas cadeias globais de valor, o ritmo das exportações e a participação em negociações internacionais.

 

Não se pretende fazer uma análise econométrica do tema nem exaurir o assunto, mas contribuir com alguns dados e pontos de vista relevantes para o debate sobre os rumos da competitividade internacional da região, com ênfase no Brasil.

 

Movimentos do comércio internacional competitivo: onde está o Brasil?

 

Desde a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, a evolução sistemática das cadeias globais de valor (CGVs)[i] tem chamado a atenção de especialistas tanto pela escala que vem ganhando nos últimos anos quanto pela progressiva complexidade dos eventos contemplados nessas cadeias.

 

A evolução das CGVs reflete a fragmentação internacional da produção e propõe reflexões quanto às políticas econômicas e comerciais adotadas pelos Estados nacionais, uma vez que afetam diretamente o desempenho econômico e o ganho/a perda de benefícios derivados da participação ou não nas CGVs.

 

Entre os benefícios da participação dos países em CGVs, são comumente apontados: i) ampliação das taxas de crescimento econômico; ii) aumento da inovação e produtividade das empresas; iii) atração de investimentos estrangeiros; iv) aprendizado em processos, governança e formação de  competências; v) modernização e sofisticação da matriz industrial e funcional; e vi) aumento do comércio de bens e serviços.

 

Como se tem discutido frequentemente em artigos acadêmicos, o Brasil está à margem dos movimentos mais sofisticados do comércio internacional e tem sido mais espectador que protagonista nas trocas comerciais internacionais e no compartilhamento global produzidos pelas CGVs na América Latina e no mundo. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)[ii], hoje o Brasil tem um índice de inserção nas cadeias globais de 33%. Num ranking com 53 países, o país ocupa a antepenúltima posição, atrás de Argentina e África do Sul.

 

Ademais, países que costumam ser comparados com o Brasil em tamanho, tipo de economia ou grau de desenvolvimento, como Estados Unidos, Austrália e México, estão comparativamente mais integrados, com índices entre 40% e 60%.

 

Não é difícil entender a dificuldade brasileira em se inserir nas cadeias globais. Com efeito, gargalos em infraestrutura, um sistema tributário complexo, uma burocracia excessiva e baixos incentivos à inovação, aliados à ausência de uma política comercial efetiva, mantêm o Brasil isolado da evolução dos principais movimentos e negociações comerciais internacionais.

 

O resultado recente da balança comercial reflete a falta de competitividade da nossa economia, que viveu um período de tranquilidade entre 2004 e 2011 (ver Gráfico 1) com a alta no preço das commodities e a grande entrada de capital, que financiaram um enorme aumento da demanda interna, e que agora expõem a fragilidade da economia brasileira. Como enfatizou Edmar Bacha, em artigo publicado em 2014, o período de bonança "foi gerado por uma explosão dos preços das commodities que exportamos e por um extraordinário influxo de capitais estrangeiros"[iii].

 

Dados de instituições internacionais, como o Global Competitiveness Index, publicado pelo Fórum Econômico Mundial em 2015, rebaixaram o Brasil em uma posição no ranking mundial, de 56º para 57º (em um total de 144 posições). As principais fraquezas apontadas pela instituição foram: infraestrutura nacional, eficiência das instituições públicas e corrupção (ver Gráfico 2). Ainda, para o biênio 2014-2015, o Fórum apontou que o desempenho macroeconômico fraco do país, as restrições ao financiamento e o crédito podem constituir entraves para o desenvolvimento brasileiro. O fraco sistema educacional, ranqueado em 126º entre todos os países, também foi apontado como um problema por não conseguir capacitar os trabalhadores da forma necessária ao mercado de trabalho[iv].

 

Ademais, conforme os dados mais recentes do Logistics Perfomance Index (LPI)[v] – índice criado pelo Banco Mundial para analisar o desempenho dos países em relação à logística –, o Brasil, se comparado a outros países da América Latina, aparece atrás de Chile, México e Argentina (ver Tabela 1).

 

Em um segundo ponto diferenciador, os vizinhos latino-americanos têm empreendido esforços na construção de mais acordos comerciais relevantes. Nesse sentido, o Gráfico 3 mostra a movimentação de Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai nessa seara conforme os dados oficiais atualmente disponíveis.

 

A falta de empenho brasileiro em formar novas alianças comerciais é tema recorrente em debates, artigos e estudos acadêmicos. Ainda que a América Latina, se comparada com a Ásia e Europa, não seja um centro dinâmico de integração produtiva, o Brasil apresenta resultados muito aquém do potencial do país.

 

É bem verdade que, entre os problemas que inibem o crescimento da competitividade da América Latina, existem sérios problemas de transporte e logística que, como calcula o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), fazem com que o bloco atraia 20% a menos de investimentos[vi].

 

Ainda que a América Latina como um todo venha participando há décadas de redes internacionais de produção, a participação do bloco limitou-se ao fornecimento de matérias-primas e insumos básicos. A região não tira proveito do crescimento quantitativo e qualitativo da fragmentação da produção internacional e mantém uma limitada pauta exportadora.

 

Não obstante, diferentemente do Brasil, vários países latino-americanos, a exemplo de México e Chile, além de estarem engajados em negociações internacionais relevantes, têm empreendido processos de sofisticação de suas matrizes industriais, de saneamento de suas deficiências e de oferta de condições atrativas a investidores estrangeiros.

 

Considerações finais

 

Segundo o Plano de Governo lançado em 2014, o Brasil dará prioridade à América do Sul, América Latina e Caribe e estará empenhado em fortalecer o Mercado Comum do Sul (Mercosul), a União de Nações Sul-americanas (UNASUL) e a Comunidade dos Países da América Latina e Caribe (CELAC). Ainda segundo o Plano, o Brasil buscará, antes de tudo, a integração da região, por meio do fomento do comércio e da integração produtiva.

 

Se assim for, tudo indica que poucas mudanças ocorrerão para as negociações internacionais e o incremento do comércio internacional brasileiro. A não-abertura para novos acordos ou para a inserção qualitativa do país nas CGVs manterá o Brasil como espectador no cenário multilateral. Um perfil mais agressivo nas negociações internacionais (envolvendo também acordos sanitários, de investimentos e de bitributação) permitiria que o país evitasse perder oportunidades de investimento, oportunidades de aprendizado e de crescimento. Afora isso, permanecerá apenas a expectativa de que aconteça um novo milagre no preço das commodities.

 

* Welber Barral é doutor em Direito Internacional pela USP e consultor sênior em comércio internacional da BMJ.

** Renata Amaral é doutora em Direto Internacional pela Maastricht University e pela UFSC e consultora em comércio internacional da BMJ.

*** Verônica Prates é graduada na London School of Economics e consultora em relações governamentais da BMJ.

 




[i] Sinteticamente, as CGVs dizem respeito à gama completa de atividades das empresas, desde a concepção de um produto até seu uso pelo consumidor final. Incluem, assim, atividades de design, produção, marketing, distribuição e suporte ao consumidor final.

[ii] Disponível em: <http://bit.ly/1EsLuC1>.

[iii] Ver: Bacha, Edmar. Integrar para crescer: o Brasil na economia mundial. In: Revista Brasileira de Comércio Exterior, vol. 28, n. 118, jan-mar. 2014, pp. 4-13.

[iv] Disponível em: <http://bit.ly/1B2vPaC>.

[v] O índice considera seis indicadores: i) eficiência no processo de desembaraço pelas agências de controle fronteiriço; ii) qualidade da infraestrutura de transporte de mercadorias; iii) facilidade para realizar embarques com preços competitivos; iv) qualidade do serviço logístico; v) habilidade para controlar e rastrear remessas de bens; e vi) pontualidade para alcançar o destino dentro do prazo esperado.

[vi] Disponível em: <http://bit.ly/1Cv7bol>.

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