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EXPETATIVAS
BAIXAS NO INÍCIO DA MINISTERIAL DE HONG KONG
As expetativas para
a sexta Conferência Ministerial da OMC, que se abre em Hong Kong
a 13 de Dezembro, são baixas relativamente a três áreas
chaves de acesso ao mercado das negociações da Rodada de
Doha: agricultura, bens industrializados e serviços. Os 149 países
Membros da organização reconheceram em Novembro que as suas
posições de negociação estavam muito distantes
para permitir alcançar um acordo em Hong Kong num quadro detalhado
de cortes de subsídios e tarifas em agricultura e acesso ao mercado
não-agrícula (NAMA). Adicionalmente, um golfo muito amplo
emergiu sobre as abordagens a serem adotadas nas conversações
sobre serviços.
Com as esperanças para um pacto abrangente desaparecendo pouco
a pouco, vários governos têm virado as suas miras no sentido
de apresentarem um 'pacote para o desenvolvimento' de iniciativas sobre
questões tais como assistência ao comércio e direitos
- e quotas de acesso ao mercado livre para exportações de
países menos desenvolvidos (LDCs), como forma de recuperar algo
de concreto do encontro de alto perfil.
Apesar das suas 'expetativas recalibradas' para Hong Kong, os Membros
insistem que estão decididos a concluir as negociações
até o fim de 2006 ou início de 2007. Isso é motivado
em grande parte pelo término, nos meados de 2007, da "autoridade
para a promoção do comércio" concedida ao Presidente
dos EUA George W. Bush, que lhe permite negociar um acordo de comércio
e apresentá-lo ao Congresso para um simples voto sim-ou-não
sem o risco de grandes emendas.
O Texto Ministerial
O draft do texto a
ser discutido nos próximos seis dias requer algumas decisões
por parte dos ministros. De entre esses, as principais são as novas
datas-limites para concluir o quadro das negociações - ou
'modalidades completas' - para a agricultura e o NAMA. Contudo, separadamente
do draft do texto da declaração, o Diretor-Geral da OMC
Pascal Lamy e o Presidente do Conselho Geral Embaixatriz Amina Mohamed
(Quénia) enviaram aos ministros um conjunto de questões
específicas sobre a possível natureza de eventuais modalidades
de negociações sobre a agricultura e o NAMA. Essas podem
servir para levar as discussões para além de uma simples
determinação de datas limites futuras.
O draft da declaração aponta para a convergência que
os Memberos já alcançaram em um punhado de questões
nas negociações sobre a agricultura e o NAMA - embora não
numa linguagem vinculativa que refere 'hipóteses funcionais' em,
por exemplo, o número de níveis em que estão classificados
os subsídios à agrocultura e as tarifas, para efeitos da
sua redução.
Anexo ao draft da declaração ministerial estão seis
relatórios das Mesas dos grupos chaves de negociações.
Apenas um, sobre a facilitação do comércio, foi aprovado
pelos Membros antes da Ministerial de Hong Kong. Os outros - sobre a agricultura,
NAMA, serviços, normas, e tratamento especial e diferenciado (SDT)
para países menos desenvolvidos - foram submetidos pelas respetivas
Mesas sob a sua própria responsabilidade, e os seus conteúdos
não foram nem negociados nem acordados pelos Membros. Apesar disso,
as delegações concordaram que o texto constituía
uma base razoável para discussões ministeriais em Hong Kong.
O encontro será presidido por John Tsang, Secretário do
Comércio, Indústria e Tecnologia de Hong Kong. Nomeou seis
outros ministros como 'facilitadores' para lhe assistirem na formulação
de um compromisso sobre as áreas mais contenciosas das negociações.
Humayun Akhtar Khan do Paquistão será responsável
pelas negociações sobre o NAMA. O seu homólogo do
Quénia, Mukhisa Kityui, debruçará sobre as negociações
igualmente divisivas sobre a agricultura. O Ministro dos Negócios
Estrangeiros do Guiana, Clement Rohee facilitará as negociações
sobre questões específicas relacionadas com o desenvolvimento,
tais como o tratamento especial e diferenciado (SDT) para países
em desenvolvimento. O trabalho sobre as restantes questões de negaciações,
incluindo serviços e normas, serão divididos entre três
'facilitadores-gerais': O Ministro do Comércio da Coréia,
Kim Hyun-Chong, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega,
Jonas Gahr Store e o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Chile,
Ignacio Walker.
Mudança
na Dinâmica de Negociações
Uma das grandes mudanças
desde a última Conferência Ministerial tem sido o papel crescente
dos países em desenvolvimento em fazer avançar as negociações.
O Acordo de Enquadramento de Julho de 2004 que reavivou a Rodada de Doha
foi organizado pelas 'cinco partes interessadas' (FIPs: a UE, os EUA,
Austrália, Brasil e Índia), e não pelo 'Quad' dos
EUA, UE, Japão e Canadá que tinham determinado o esboço
alargado dos acordos globais de comércio do período pré-OMC
do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio até o início
da Rodada de Doha.
O grupo G-20 de países em desenvolvimento, que se formou antes
de Cancún para impulsionar reduções drásticas
nos subsídios à agricultura pelos países ricos, tem
desafiado espetativas de que desmoronaria para emergir como uma força
coesa nas negociações. Os Membros do grupo, que inclui o
Brasil, China, Índia e África do Sul, têm tido sucesso
em ligar os seus interesses divergentes no sentido de apresentarem propostas
conjuntas em todos os aspetos das conversações sobre a agricultura.
Os G-20 também desempenham um papel significativo no apoio a outras
alianças de países em desenvolvimento, tais como os G-33,
cujo enfoque é em segurança alimentar, a sobrevivência
e preocupações sobre o desenvolvimento rural.
Embora o 'novo Quad' - os EUA a UE, Índia e Brasil - tragam um
alcance mais alargado de interesses à mesa de negociações
mais influente da OMC, um número de Membros influentes da OMC continua
a ter reservas sobre a não-inclusividade e falta de transparência
do grupo. Esses incluem muitos países mais pequenos em desenvolvimento,
assim como os G-10, que consiste nos principais países importadores
de géneros alimentícios que proporcionam um alto grau de
proteção aos seus setores agrículas (Japão,
Coréia, Suiça e outros).
Agricultura
Os Membros estão
intensamente divididos sobre a extensão dos cortes tarifários
à agricultura, quantos produtos a serem isentos, (parcialmente
ou totalmente) das reduções, e se ou como estabelecer tetos
tarifários sobre produtos agrícolas. Propostas de redução
por países desenvolvidos variam de entre um corte máximo
de 45 porcento sem tetos tarifários na proposta dos países
do rupo G-10, a um corte máximo de 90 porcento com um limite de
75 porcento proposto pelos EUA, o Grupo Cairns de exportadores agrícolas
e os G-20, que quer que os países desenvolvidos cortem as tarifas
em 54 porcento enquanto que os países em desenvolvimento fariam
o mesmo em 36 porcento. No entretanto, alguns países Membros da
UE, mais vocalmente a França, têm condenado a oferta como
sendo muito elevada.
A UE insiste que cortes tarifários mais acentuados causariam a
erosão, com resultados devastadores, do acesso preferencial ao
mercado que concede a alguns países em desenvolvimento. O Brasil
e os EUA demitiram esse argumento como sendo egoista.
A 3 de Dezembro, os ministros do comércio da Austrália,
Brasil, a UE, Índia e os EUA concordaram em tentar chegar a consenso
até 1 de Março de 2006 sobre uma data para a eliminação
dos subsídios à exportação - uma parte importante
das 'modalidades completas.' Alguns tinham esperançado que os Membros
estabeleceriam essa data em Hong Kong.
Acesso
ao Mercado Não-Agrícula
Sobre o NAMA, o draft
da declaração refere a uma 'hipótese funcional' sobre
a abordgem da fórmula 'Suiça' à redução
tarifária, mas convergência em pouco menos do que isso, incluindo
as flexibilidades a serem acordadas a países em desenvolvimento
quando aplicam a fórmula, e o tratamento das tarifas não
consolidadas. Os Membros continuam a discordar sobre se os países
em desenvolvimento deveriam ser capazes de reter flexibilidades mesmo
que a própria fórmula esteja estruturada de forma a lhes
permitir fazer cortes tarifários inferiors aos dos países
ricos através do uso de diferentes 'coeficientes' (os números
associados à fórmula que são fortes determinantes
dos níveis tarifários de um país após a redução).
As negociação sobre o NAMA têm sofrido pela falta
de progresso na agricultura. O Brasil e Índia têm argumentado
que as exigências da UE sobre o NAMA e os serviços - incluídos
na sua proposta abrangente da Rodada de Doha de 28 de Outubro - são
desproporcionados em relação ao que estão dispostos
a oferecer no acesso ao mercado agrícola. Esta proposta, dizem
eles, exigiria que se fizessem cortes de 75 porcento nas tarifas do NAMA.
A UE contra-atacou com críticas a dois países em desenvolvimento
por não terem formalizado as suas próprias propostas sobre
o NAMA e os seriços. Esses, por sua vez, têm insistido que
não farão nada do tipo antes que a UE ofereça cortes
mais profundos nas suas tarifas agrículas.
Recentemente, Brasil e Índia indicaram que poderiam aceitar um
corte tarifário de 50 porcento sobre produtos industrializados,
e possivelmente mais - mas só se a UE e os EUA concardarem em fazer
cortes mais profundos aos seus subsídios à agricultura e
sobre tarifas do que aquilo que já colocaram na mesa. Recentemente
o Brasil sugeriu que lhe seria politicamente impossível aceitar
uma redução tarifária sobre o NAMA mais profundo
do que o corte tarifário oferecido pelos países desenvolvidos.
Serviços
A fim de se chegar
a um possível acordo sobre o envio do draft da declaração
aos ministros em Hong Kong, os Membros colocaram a sua referência
ao anexo sobre os serviços entre parênteses, tendo em conta
que um número deles achou que da forma como estava fraseada implicava
um consenso que não existia. Muito mais específico do que
os anexos sobre a agriculura e o NAMA, foi o texto avançado pela
Mesa dos serviços, desde que metas qualitativas não-vinculativas
em relação aos compromissos de liberalização
plos Membros, assim como para o processo de pedido-oferta multi-lateral
(em contraste com o bilateral actual), permitindo os grupos de países
a fazer pedidos de abertura de mercado.
Durante o encontro ministerial, os Membros negociarão sobre o estado
actual dos anexos de serviços não-adotados - ou mais especificamente,
as abordagens para a liberalização de serviços estabelecidos
nos mesmos. O texto obriga os países a negociarem com qualquer
grupo de Membros que faça um pedido plurilateral. Alguns países
temem que isso os poderia deixar sob imensa pressão para liberalizarem
setores que não estão preparados para a concorrência
estrangeira.
Pacote
de Desenvolvimento
Apesar dos numerosos
pedidos e uma decisão a favor do desenvolvimento em Hong Kong,
os Membros não poderam chegar a acordo sobre nenhuma das versões
das cinco propostas de acordo-específico dos LDC para disposições
melhoradas do SDT presentes no Anexo X do draft da declaração
- o terceiro das 'questões mais difíceis nas conversações'
identificado por Lamy.
Entre o mais preeminente dessas é um pedido de acesso isento de
direitos e quotas aos mercados dos países ricos para as exportações
dos LDC, mas os EUA continua cauteloso, particularmente em relação
a abertura do seu mercado de téxteis. A secção do
texto do draft sobre os LDCs prevê que os "países-desenvolvidos
Membros, e os países em desenvolvimento Membros que se declararem
em condições de o fazer" concedam acesso isento de
direitos e de quotas às exportações dos LDC até
o fim da rodada. Vários países têm sugerido que tal
acesso poderia ser parte de um potencial acordo de 'colheita antecipada'
sobre questões de desenvolvimento em Hong Kong.
Contudo, alguns países em desenvolvimento têm vigorosamente
acautelado que um 'pacote' de desenvolvimento não faz uma rodada
de desenvolvimento. Por seu lado, o Presidente Tsang da Mesa da Conferência
Ministerial alertou que qualquer tal decisão não deve ser
transformada numa 'peça negocial' da globalidade das conversações.
'Assistência ao comércio,' geralmente entendida como financiamento
visando a melhoria da habilidade dos países em desenvolvimento
de participar no comércio internacional, tem sido citado cada vez
mais como uma parte essencial de qualquer pacote de desenvolvimento. Há
expetativa de que vários países Membros da OMC anunciarão
o aumento de financiamento nessa área em Hong Kong; Japão
e o Grupo dos Sete (G-7) países industrializados recentemente anunciaram
o reforço da assistência para iniciativas de comércio.
A OMC anunciou ontem que tais dispêndios tinham aumentado em 50
porcento desde a Conferência Ministerial de Doha em Novembro de
2001, com verbas aplicadas no sentido de assistir países a entrarem
em conformidade com as normas da OMC e a participarem em negociações,
para assistir empresas a fazer comércio e para ajudar governos
a construir infraestruturas físicas tais como estradas e portos,
relacionadas ao comércio. Outras áreas possíveis
incluem assistência para a diversificação das exportaões
ou ajustamentos à erosão da preferência e outras mudanças
causadas pela liberalização do comércio.
Os Membros da OMC chegaram já a acordo sobre duas questões
que tinham sido mencionadas como elementos potenciais para um pacote de
desenvolvimento em Hong Kong - conceder aos LDCs uma extensão de
sete anos e meio para entrarem em conformidade com a maioria das normas
da OMC sobre a propriadade intelectual, e emendar o Acordo sobre Aspetos
do Comércio Relacionados com os Direitos da Propriedade Intelectual
(TRIPS) para permitirem os países com insuficiente capacidade de
produção importar versões genéricas mais baratas
de medicamentos ainda sob patente. Contudo, os críticos argumentam
que ambas essas decisões terão pouco uso prático
para os países pobres. Dizem que aqueles estão tão
circunscritos que têm um valor limitado, enquanto que estes são
baseados num acordo de 2003 que nenhum país os pôde usar
até agora para importar drogas.
Algodão
Relativamente
ao mandato dos Membros do Enquadramento de Julho para abordar as distorções
no comércio do algodão, o texto agora prevê duas alternatives
entre parênteses: continuar a trabalhar de um modo geral da presente
forma, ou chegar a acordo sobre modalidades específicas que garantiriam
uma eliminação mais atempada e rápida dos subsídios
distorcedores do comércio no setor.
Em resposta a uma série de propostas do Benin, Burkina Faso, Chad,
e Mali, a UE apelou aos Membros da OMC no sentido de chegarem a acordo
em Hong Kong sobre reduções substanciais nas tarifas sobre
o algodão e apoio interno, assim como a eliminação
de subsídios à exportação de forma "acelerada
e frontal em comparação com o calendário de implementação
aplicável a outros setores com cobertura nas negociaçõees
sobre a agricultura." Ofereceu também eliminar 'de forma autónoma'
todos os subsídios à exportação do algodão,
tarifas e quotas, assim como os tipos de apoio interno mais distorcedores
de cmércio em 2006.
Contudo, nas vésperas da Ministerial de Hong Kong, o Vice-Representante
do Comércio dos EUA Karan Bhatia afirmou que a única 'colheita
antecipada' que os EUA estaria disposto a considerer seria a implementação
acelerada do desfaseamento dos subsídios ao algodão - mas
só depois de uma decisão global ter sido concluída
em relação à agricultura.
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