 |
 |
DEMONSTRAÇÕES
DE FORÇA MARCAM O PRIMEIRO DIA DE TRABALHO
No início da Conferência
Ministerial de Hong Kong, no dia 13 de dezembro, representantes dos Membros
da OMC mantiveram-se firmes em suas posições, ao longo de uma série de
coletivas à imprensa e outros encontros.
Na tentativa de escapar
da culpa pelo atual impasse nas negociações, nenhum deles hesitou em criticar
os argumentos dos seus pares, ainda que mais ou menos diretamente. Quando
os Estados Unidos foram desafiados, por exemplo, a apresentar uma proposta
sobre o programa para acesso a mercados livre de quotas e tarifas para
países de menor desenvolvimento relativo (PMDR) no mesmo patamar que a
da União Européia (UE), citaram um recente estudo do Banco Mundial com
a indicação de que uma vez levadas em consideração as exigências, tais
como padrões e regras de origem, os EUA estariam mais abertos às exportações
dos PMDRs do que a UE. Os dois lados também trocaram farpas em público
sobre assistência alimentar.
Enquanto isso, os
facilitadores das negociações sobre acesso a mercados de produtos não-agrícolas
(NAMA, sigla em inglês) e desenvolvimento mantiveram encontros informais,
para discutir como seriam estruturados os trabalhos durante a ministerial.
Reafirmação
das posições
Ao final
do primeiro dia da ministerial, as negociações pareciam concentrar-se
em agricultura, NAMA e um pacote de medidas em favor dos PMDRs. Segundo
o Diretor Geral da OMC, Pascal Lamy, estas são as áreas que necessitam
de maiores progressos, já que os tópicos estão intrinsecamente relacionados
na negociação. Pascal Lamy estima que, até o final do encontro em Hong
Kong, as negociações possam alcançar entre 55% e 66% dos resultados previstos
para a Rodada Doha.
O Grupo
dos 20 países em desenvolvimento (G-20) aproveitou a oportunidade para
ressaltar seu papel como interlocutor coeso e "indispensável" durante
as negociações. A Índia destacou a relevância dos "produtos especiais"
e dos mecanismos especiais de salvaguardas como uma das prioridades imediatas
para os países em desenvolvimento nas negociações.
A firme
posição do G-20 acerca da eliminação dos subsídios agrícolas contrastava
com a declaração do Comissário de Comércio da UE, Peter Mandelson, de
que, mesmo se levarmos em consideração a necessidade de um resultado ambicioso
para a Rodada Doha, focar as negociações apenas em agricultura poderia
ser contra-produtivo. O Secretário de Comércio dos EUA, Robert Portman,
por sua vez, enfatizou que o encontro de Hong Kong não representava a
oposição dos ricos contra os pobres.
Quanto
ao processo de negociação, as duras críticas apresentadas em Cancún sobre
transparência e inclusão desapareceram. De um ponto de vista prático,
a maioria dos Membros parece ter efetivamente aceito a idéia de que os
encontros conduzidos pelo Presidente da Conferência Ministerial para reuniões
de consultas (na chamada "sala verde") são a única maneira realista de
seguir em frente em uma organização de 149 Membros, desde que todas delegações
sejam informadas do processo e das posições.
Encontros
bilaterais estão com toda força e o primeiro encontro de "sala verde"
aconteceu já no final da terça-feira. As sessões plenárias, nas quais
os ministros apresentam declarações elaboradas previamente, iniciam-se
na quarta-feira pela manhã. Dentre os 32 oradores programados estão os
EUA, a UE, alguns membros do G-20 (China, Brasil e Índia), Japão e Suíça
pelo G-10, alguns membros do Grupo de Cairns (Canadá e Nova Zelândia)
e Zâmbia, representando o grupo dos PMDRs. Mais tarde, a agenda da sessão
plenária prevê a análise da proposta relativa à iniciativa do algodão,
apresentada por 4 países do oeste africano, e a recusa da UE para a participação
de terceiros na delongada disputa das bananas.
Destaque
para Assistência ao Comércio
A disputa dos Membros
por posicionamento político sobre o conjunto das negociações estendeu-se
às discussões sobre um pacote de desenvolvimento para os PMDRs. O Japão
anunciou um grande aumento em seus gastos em assistência ao comércio.
O Comissário Mandelson revelou, na terça-feira, um plano para oferecer
benefícios similares para os países pobres. De qualquer forma, as linhas
para o acordo de assistência ao comércio, que pode ser alcançado em Hong
Kong, ainda não estão claras. Neste momento, os países anunciam comprometimento
com a disponibilização de recursos sem detalhar a forma como os recursos
serão gastos. É provável, no entanto, que o substancial desta assistência
seja distribuída bilateralmente. Além disso, as promessas de incremento
na ajuda podem vir a ser motivos para desculpas: na mesma coletiva de
imprensa, o Secretário de Comércio dos EUA, Rob Portman, advertiu que
um acordo sobre assistência "pode ser perdido" caso a Rodada Doha eventualmente
falhe.
O Comissário Mandelson,
que se referiu ao pacote de desenvolvimento para os PMDRs como "indispensável",
indicou que a UE haviam se comprometido a aumentar os gastos anuais com
assistência ao comércio para € 2 bilhões até 2010. Deste total, € 1 bilhão
virá dos países-Membros, que concordaram com o aumento (da ordem € 400
milhões por ano). O restante virá da Comissão Européia. "A Europa não
veio para Hong Kong de mãos vazias no que diz respeito à assistência ao
comércio", afirmou Mandelson.
A atitude da UE vem
apenas alguns dias depois do anúncio do Japão de que gastará US$ 10 bilhões
em assistência ao comércio nos próximos 3 anos para os PMDRs, na forma
de auxílio para construção de infra-estrutura, como pontes e viadutos,
bem como para a revitalização de seus sistemas aduaneiros. O Japão também
indicou que forneceria acesso livre de tarifas e cotas a seu mercado para
a maior parte das exportações dos PMDRs. Ainda não está claro, contudo,
se tais medidas seriam estendidas aos seus setores agrícolas mais protegidos,
como o de arroz. O Governo japonês deve apresentar o referido pacote de
assistência com maiores detalhes em seu discurso principal durante a Conferência
Ministerial de quarta-feira.
Por sua vez, o Secretário
de Comércio dos EUA, Rob Portman, apontou que os US$ 1,34 bilhão gasto
anualmente pelos EUA em assistência relacionada ao comércio, em sua maior
parte, são destinados para infra-estrutura física e facilitação de comércio.
Algumas fontes sugerem que os EUA podem anunciar um gasto adicional na
quarta-feira.
Na conferência à imprensa
com os representantes dos EUA e da UE, o Ministro da Fazenda de Ruanda,
Paul Manasseh Nshuti, enfatizou que a assistência para comércio deve vir
na forma de fundo perdido e não deve prejudicar a posição dos países beneficiados,
nas negociações.
Mesmo com a concordância
dos Ministros de que a assistência ao comércio seja um complemento necessário
- em vez de um substituto - para a liberalização do comércio, alguns grupos
defensores do desenvolvimento têm acusado os prováveis doadores de usarem
seus anúncios como forma de desviar a atenção do fracasso em concluírem
reformas comerciais que beneficiem os países pobres. De acordo com John
Hilary de "War on Want", "países ricos têm tentado comprar os opositores
a suas políticas comerciais com um cínico suborno."
Decisão
sobre a estrutura de negociação para NAMA e Desenvolvimento
O facilitador das
discussões sobre NAMA, Ministro de Comércio do Paquistão, Humayun Akhtar
Khan, informou ao Grupo de Negociação, na terça-feira à noite, que ele
conduzirá encontros bilaterais e em grupos menores entre os Membros, visto
que tais consultas o auxiliarão a compreender as preocupações dos Membros,
de forma mais efetiva do que ocorreria em encontros com todos os Membros.
Algumas fontes relatam que, para fins de transparência, Akhtar Khan organizará
sessões plenárias e também relatará nos planejados encontros diários entre
os chefes de delegação.
O Ministro das Relações
Exteriores da Guiné, Clemente Rohee, que atua como facilitador nas negociações
sobre desenvolvimento, indicou que poderia encontrar-se a portas fechadas
e em separado com cada delegação. Ainda que encarregado da facilitação
das negociações de todos os tópicos referentes a desenvolvimento não classificados
como questões de implementação - que englobam desde assistência ao comércio
até as negociações que receberam mandato em Doha para tratamento especial
e diferenciado -, ele sugeriu que seu foco principal estaria nas cinco
emendas de PMDRs às disposições dos Acordos da OMC sobre tratamento especial
e diferenciado, presentes no Anexo F da minuta da declaração ministerial.
Tal como seu contraparte em NAMA, Rohee deve relatar às reuniões diárias
dos chefes de delegação.
Formação
de novo grupo de países em desenvolvimento para NAMA?
Durante o desenrolar
das discussões sobre NAMA, um "núcleo duro" de nove países em desenvolvimento,
liderados por Índia e África do Sul, enviou uma carta ao Presidente da
Conferência Ministerial, John Tsang, na qual afirmava que a base atual
das negociações não refletia, de forma adequada, as preocupações com o
desenvolvimento. O grupo informou que os países representados têm sido
pressionados para reduzirem suas tarifas sobre produtos industrializados
"de forma desproporcional". Enfatizou, ainda, que "não se deve pedir aos
países em desenvolvimento que paguem por reformas muito necessárias nos
setores agrícolas dos países desenvolvidos". Em referência principalmente
ao comércio agrícola, eles clamaram por um nível de ambição em NAMA que
"seja calibrado com a ambição alcançada em outras negociações de acesso
a mercados".
O grupo enfatizou
que as flexibilidades concedidas aos países em desenvolvimento pelo parágrafo
8 do mandato para NAMA, Anexo B do Pacote de Julho, - como a isenção de
um pequeno número de linhas tarifárias para reduções - deveriam ser independentes
da estrutura da fórmula de redução tarifária. Os EUA e a UE, entre outros,
defenderam que os países em desenvolvimento deveriam abrir mão de, pelo
menos, algumas de tais flexibilidades em troca de uma fórmula mais leniente.
Os nove países, dentre os quais estão Argentina, Brasil, Egito, Filipinas,
Indonésia, Namíbia e Venezuela, pedem aos países ricos a eliminação de
tarifas elevadas, picos tarifários e escaladas tarifárias para produtos
de interesse dos países em desenvolvimento para exportação.
UE
e EUA trocam farpas sobre assistência alimentar
Na terça-feira, o
Diretor Geral da OMC, Pascal Lamy, afirmou que o acordo em Hong Kong sobre
novas disciplinas referentes à assistência alimentar possibilitaria a
definição de uma data para a eliminação de "todas as formas de subsídios",
de acordo com o Pacote de Julho. O estabelecimento de prazos é um elemento
essencial para a definição de "modalidades completas" em agricultura.
Muitos Membros da
OMC acreditam que a assistência alimentar prestada hoje, com a doação
de produtos, distorce os mercados, especialmente se essa doação é subsidiada.
Os excedentes das doações de alimentos podem eliminar os produtores locais
- incapazes de competir com os produtos subsidiados - do mercado. Se a
assistência fosse em dinheiro, ao menos teoricamente, poder-se-ia aumentar
a demanda pela produção local.
Ainda na terça-feira,
Mandelson afirmou que grande parte da assistência alimentar em espécie
fornecida pelos EUA era concomitante a subsídios a exportação para seus
agricultores. Ele garantiu ainda que as UE seriam muito mais receptivas
à proposta dos EUA de eliminar subsídios à exportação até 2010, se estes
concordassem em transformar seus "falsos programas de assistência alimentar"
em alternativas que distorcem menos o comércio. Como, por exemplo, transformar
em transferências em dinheiro para os países que necessitam de auxílio
alimentar, mas não estão em situações emergenciais. O Secretário de Comércio
dos EUA, Rob Portman, descreveu as UE como "neuróticas" com assistência
alimentar e sugeriu que tal abordagem corre o risco de fazer as pessoas
passarem fome.
Fórum
do IEA-UNU sobre OMC e Desenvolvimento Sustentável
O Instituto de Estudos
Avançados da Universidade das Nações Unidas (IEA-UNU) organizou um evento
para discutir e avaliar como o desenvolvimento sustentável tem sido tratado
no âmbito da Rodada Doha. Durante o encontro, foi lançado o livro "A OMC
e o Desenvolvimento Sustentável", escrito pelo ex-funcionário da OMC,
Gary Sampson. Muitos expositores de alto-nível propuseram uma revisão
da relação entre a OMC e o desenvolvimento sustentável, com o lançamento
de uma conferência periódica sobre o tema "comércio e meio ambiente" e
a criação de um grupo na OMC sobre o funcionamento do sistema multilateral
de comércio, que possa contribuir com recomendações sobre como aprimorar
a coerência política em nível global.
Agricultores protestam em Hong Kong
No início da noite
de terça-feira, houve uma manifestação com mais de 4.000 participantes
(a maioria da Coréia, Índia e Indonésia) no Centro de Convenções de Hong
Kong. Em coro, repetiam: "a OMC mata os agricultores". Cerca de 50 deles
pularam no Porto Vitória numa tentativa de furar o perímetro de segurança
do local da Conferência Ministerial da OMC. A polícia utilizou spray de
pimenta para controlar alguns dos protestantes.
Hoje, às 9 horas da
manhã, no Centro de Exibições de Hong Kong, Pascal Lamy, Hilary Benn,
Klaus Toepfer, Ulla Tornaes e Martin Khor farão apresentações sobre o
"fortalecimento da arquitetura comercial global para o desenvolvimento",
como parte das atividades do Simpósio sobre Comércio e Desenvolvimento
de Hong Kong.
|
 |
|