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OS MEMBROS ABRIRAO O JOGO A TEMPO?
À medida que
prosseguem as negociações na Conferência Ministerial
que ocorre de 13 à 18 de dezembro, em Hong Kong, nota-se que o
posicionamento dos Membros nas negociações pouco se alterou.
Negociadores e profissionais ligados ao comércio indicam que, embora
seja quase uma tradição as delegações "esconderem
o jogo" até os dois ou três últimos dias do encontro,
há o risco de que, quando eles finalmente revelarem suas posições,
não se tenha mais tempo hábil para alcançar um acordo.
Além disso, encontros informais bilaterais e plurilaterais têm
ocorrido em um ritmo alucinante, especialmente em serviços e acessos
a mercados para produtos de exportação dos países
de menor desenvolvimento relativo (PMDRs) isentos de tarifas e quotas.
Tais encontros podem abrir caminho para negociações mais
substanciais nos próximos dias.
Num encontro de quatro horas de "sala verde", no fim da quarta-feira,
todos os presentes, com exceção da UE e da Suíça,
aceitaram o ano de 2010 como prazo final para o fim dos subsídios
à exportação para produtos agrícolas. No que
se refere a acesso a mercados de produtos não-agrícolas
(NAMA, sigla em inglês), as posições permanecem praticamente
inalteradas.
O Presidente da Conferência Ministerial, John Tsang, realizou seu
primeiro encontro com os chefes de delegação, um pouco antes,
na mesma quarta-feira. Esses encontros serão realizados todos dias
da Ministerial, às 17h, para informar os Membros em geral sobre
os progressos nas consultas restritas, com grupos de 30 e 40 Ministros.
Os facilitadores de NAMA e desenvolvimento declararam, no encontro, que
os negociadores não fizeram nada mais do que reiterar posições
antigas. O Ministro das Relações Exteriores da Noruega,
Jonas Gahr Store, reforçou que permanecia à disposição
dos Membros no que diz respeito às consultas sobre regras da OMC.
As consultas sobre serviços iniciaram-se sob o comando de seu colega
e grande facilitador Kim Hyun-Chong, Ministro de Comércio da Coréia
do Sul. Durante a "sala verde" de terça à noite,
cujo foco recaiu sobre problemas procedimentais, os facilitadores garantiram
às delegações mais ansiosas que eles se reuniriam
com todos os diferentes grupos de Membros.
Durante a sessão de quarta-feira, os EUA anunciaram que dobrariam
sua assistência ao comércio para um total de US$ 2,7 bilhões,
os quais estão explicitamente condicionados "à expansão
de acesso a mercados e à eliminação de subsídios
distorcivos ao comércio".
Aumentam
as Apostas sobre Algodão e Bananas
Em uma
última e longa sessão plenária do dia, os Membros
da OMC ouviram ministros após ministros expressarem benevolências
quanto ao drama dos fazendeiros de algodão da África Ocidental
afetados pelos baixos preços internacionais, sendo que não
houve nenhum comprometimento dos EUA quanto a um "resultado antecipado"
sobre o caso do algodão. Em vez de prometer uma rápida eliminação
dos subsídios, o Secretário de Comércio dos EUA,
Robert Portman, disse que 11 recentes estudos mostraram que uma eliminação
total dos subsídios resultaria em um aumento de apenas 2% a 12%
no preço mundial do algodão, sendo o mais provável
entre 2% e 3%. Dessa forma, argumentou que assistência e redução
de tarifas globais, em vez de redução de subsídios,
seriam necessários para ajudar os países africanos produtores
de algodão a saírem da pobreza. Diante da reafirmação
pelos EUA de que seus subsídios não causam queda nos preços
do algodão para valores abaixo do custo de produção,
nem mesmo em países com baixos salários relativos, como
Benim, Burkina Faso, Chade e Mali, os países africanos decidiram,
em uma sessão de emergência, levar o debate do campo técnico
para o político. Eles afirmaram que, após a decisão
desfavorável da OMC sobre os subsídios dos EUA ao algodão,
a ligação entre os subsídios e os preços internacionais
era incontestável, e que os produtores de algodão da África
não consideravam a possibilidade de deixar Hong Kong sem uma solução
para a sua antiga demanda por uma solução para a crise do
comércio de algodão.
Os ânimos ficaram igualmente exaltados na questão das bananas,
o segundo tema na agenda da sessão plenária. Em declarações
particularmente fortes, Honduras, Colômbia e Equador criticaram
duramente a tarifa de importação de € 176/ton adotada
pelos Membros da UE no dia 25 de novembro. A UE implementou de forma unilateral
a nova tarifa - bem distante do patamar de € 75/ton pretendido por
produtores de banana latino-americanos - após o colapso das negociações
entre os dois lados e a condenação pelo árbitro da
OMC da proposta da UE de € 187/ton.
O regime de importação de bananas da UE praticamente acabou
com a Conferência Ministerial da OMC em Doha (2001). A questão,
tanto naquela ocasião, como agora, foi uma isenção
necessária para que a UE continuasse a estender o acesso a seu
mercado sem tarifas, para exportações provenientes da África,
do Caribe e dos países do Pacífico (ACP), após seu
regime de importação de bananas ter sido declarado ilegal.
A isenção foi concedida in extremis no último dia
da conferência, com a condição de que a UE substituísse
seu regime de importação de cotas e licenças por
um regime de tarifa única até 1 de janeiro de 2006, impreterivelmente.
Honduras, Colômbia e Equador exortaram a UE a reconsiderar a tarifa
de € 176/ton até aquela data. Eles reforçaram a sua
boa-vontade de iniciarem as negociações, mas enfatizaram
que a solução deve ser alcançada em Hong Kong. Alguns
observadores acreditam que a disputa sobre as bananas será tão
áspera quanto aquela de 4 anos atrás em Doha.
Acesso
a mercados com isenção de tarifas e de quotas para PMDRs
O facilitador para
Desenvolvimento, Clement Rohee, Ministro de Comércio da Guiana,
relatou na quarta-feira, durante o encontro com os chefes de delegação,
que ainda persistiam as divisões sobre acesso a mercados com isenção
de tarifas e de quotas para as exportações provenientes
de PMDRs - a primeira das cinco propostas do Anexo F da minuta do texto
da declaração ministerial. A UE, já comprometida
com o acesso com isenção de tarifas e quotas de forma permanente,
em razão de sua própria iniciativa "Tudo Exceto Armas"
(EBA, sigla em inglês), declarou de forma incisiva que outros países
desenvolvidos deveriam fazer o mesmo. Os EUA e o Japão, contudo,
preferem ter a possibilidade de excluir alguns produtos - tais como têxteis
ou arroz - pelo menos por algum tempo. Eles também gostariam de
resguardarem a possibilidade de revogar o status de acesso preferencial
às importações dos PMDRs que excederem uma certa
parcela de seus mercados.
Também surgiram diferenças sobre o momento em que entrará
em vigor o regime de acesso a mercados isento de tarifas e quotas para
os PMDRs. O Embaixador dos EUA na OMC, Peter Allgeier, afirmou que isto
deveria ser implementado em conjunto com todo o pacote resultante da Rodada
Doha. A Índia e o Brasil, por outro lado, ressaltaram que estavam
prontos para fazê-lo antes da conclusão da Rodada.
Algumas fontes relataram que os EUA têm pressionado os negociadores
dos PMDRs e seus Governos bilateralmente, a fim de que aceitem potencial
exclusão de alguns produtos e de países do referido tipo
de acesso a mercados. Uma fonte dos PMDRs ressaltou que a exclusão
de apenas um ponto percentual das linhas tarifárias seria suficiente
para manter os têxteis de Bangladesh fora do programa de acesso
a mercados isentos de tarifas e de cotas dos EUA. Um oficial de alto nível
dos PMDRs sugeriu que qualquer pacote de acesso a mercados para os PMDRs
que não incluísse todos os países e todos os produtos
seria inaceitável.
Ainda com relação a têxteis, a UE repetiu, na quarta-feira,
sua demanda para que uma iniciativa setorial em NAMA liberalize o comércio
de têxteis e vestuário, sugerindo também que todos
os países reduzam suas tarifas neste setor para o mais próximo
possível de zero. Não ficou claro, porém, se a UE
planeja retirar todas as salvaguardas que, atualmente, aplica às
importações de têxteis da China como parte da referida
iniciativa. É provável que liberalização setorial
nos têxteis não pareça atraente aos EUA, dada a sua
relutância em abrir totalmente seu mercado de têxteis para
as exportações dos PMDRs.
O
Primeiro Encontro em Agricultura
O grupo de negociação
sobre agricultura realizou seu primeiro encontro com todos os Membros
na quarta-feira. O facilitador Mukhisa Kituyi, Ministro da Indústria
e Comércio do Quênia, exortou os Membros a cederem um pouco
em suas demandas, e os encorajou a se encontrarem com vistas a alcançarem
posições plausíveis de perdas e ganhos para ambos
os lados. As delegações tinham idéias diferentes
sobre o que deveriam tentar alcançar em Hong Kong; alguns queriam
concentrar-se no prazo final para os subsídios às exportações
(e em formas paralelas de apoio à exportação), enquanto
outros prefeririam discutir os subsídios e redução
tarifária, ou as flexibilidades e outras medidas para os países
em desenvolvimento.
Vários países em desenvolvimento louvaram a coordenação
entre o G-20 e outros grupos de países em desenvolvimento (ACP,
PMDRs, CARICOM, União Africana, economias pequenas e vulneráveis,
G-33, G-90) - note-se que seu encontro informal "extendido"
foi o primeiro no âmbito da OMC. O Ministro de Relações
Exteriores do Brasil, Celso Amorim, afirmou que os países em desenvolvimento
realmente tinham alguns interesses comuns, e a coordenação
poderia auxiliá-los a "ordená-los de modo a benefíciar
a todos".
Celso Amorim afirmou que a Conferência Ministerial de Hong Kong
necessitava de um resultado claro e tangível, e que deveria ser
um prazo final para a eliminação dos subsídios à
exportação. A atenção cada vez maior na concorrência
das exportações poderia explicar o relativo destaque para
assistência alimentar, assunto sobre o qual os EUA e a UE continuaram
a alfinetar-se na quarta-feira. Enquanto isso, o Grupo Africano - muitos
dos quais recebem assistência alimentar - indicou que a ajuda em
espécie era aceitável em emergências. Nas situações
em que há alimentos disponíveis na região, eles sugeriram
que um mecanismo multilateral tal como o Programa Alimentar Mundial podesse
ser usado para garantir que a ajuda financeira seja empregada para obter
os melhores resultados.
Negociações
bilaterais sobre serviços revelam possíveis problemas
Algumas fontes relataram
que já há temores de que aumente a tensão entre os
Membros desejosos de tornar a linguagem do anexo relativo a serviços
mais ambiciosa e aqueles que são a favor de sua flexibilização
ou mesma da retirada por completo do texto ainda em colchetes do corpo
da minuta da declaração. A Índia declaradamente é
a favor da manutenção do anexo pelos Membros. O Brasil,
que em Genebra exerceu pressão para que a referência ao anexo
sobre serviços, no texto da minuta, viesse em colchetes, afirmou
que, do seu ponto-de-vista, tudo pode ficar assim. Comenta-se, contudo,
que outros países, dentre os quais o Grupo ACP, o Grupo Africano
e a Malásia, já redigiram um texto alternativo para os objetivos
qualititativos modais e negociações plurilaterais, ainda
que não tenham ainda se o apresentarão formalmente ou não.
Possivelmente, isso se deve ao fato de que a re-abertura do texto para
negociações poderia ocasionar modificações
ainda mais indesejadas do que as que estão sobre a mesa hoje. Algumas
fontes sugerem que a UE, por outro lado, já demonstrou em negociações
bilaterais, que deseja aumentar o nível de ambição
do anexo e que considerará inadmissível a diluição
do já alcançado. Os EUA, por sua vez, também são
a favor de se aprimorar o anexo com a inclusão de uma lista modelo
para os compromissos em serviços. O facilitador das negociações
de serviços, Kim Hyun-Chong, deverá apresentar relato das
negociações na reunião de chefes de delegação
na quinta-feira.
Índia
clama por negociações em TRIPS-CDB
Para a surpresa de
muitos, na quarta-feira, o Ministro de Comércio da Índia,
Kamal Nath, apresentou o pedido para que se iniciem, em Hong Kong, negociações
sobre a relação entre o TRIPS e a Convenção
sobre Diversidade Biológica. Diante do crescente e já comum
descontentamento nos países em desenvolvimento com a biopirataria
e a apropriação indevida de conhecimentos tradicionais para
fins comerciais, Nath adiantou que a Índia levará o assunto
para as negociações em sala verde. A Índia já
há um bom tempo requer que todos aqueles que apresentam pedidos
de patente revelem a fonte e o país de origem dos recursos genéticos
e conhecimentos tradicionais utilizados para o desenvolvimento da invenção.
Algumas fontes revelaram que a Índia já redigiu uma minuta
da redação a ser inserida na Declaração Ministerial,
com base em sua proposta de outubro que clamava por negociações
sobre a obrigatoriedade daqueles requisitos, do consentimento prévio
e da distribuição de benefícios.
Reuniões informais sobre Meio Ambiente
As negociações
sobre meio ambiente do mandato da Rodada Doha (parágrafo 31 da
Declaração de Doha) têm ocorrido em reuniões
bilaterais informais. A redação da minuta da Declaração
Ministerial de Hong Kong prevê duas alternativas para a condução
das negociações sobre liberalização do comércio
de bens ambientais: uma instrui os Membros a continuarem seus trabalhos
em direção ao desenvolvimento de um "acordo" sobre
como se proceder nas negociações; e a outra espera que os
Membros "completem os trabalhos de acordo com o parágrafo
31(iii) por meio da identificação de bens ambientais até
2006", a fim de se acelerar a liberalização. Os países
mais desenvolvidos e recém-industrializados que têm pressionado
os demais para a criação de uma lista de bens ambientais
acordada em nível multilateral para liberalização
(o denominado método de "lista") são a favor da
segunda opção. A maioria dos países em desenvolvimento,
no entanto, declarou que tal método beneficiaria apenas os exportadores
dos países desenvolvidos e, por isso, prefeririam a redação
mais aberta da primeira opção. Comenta-se que também
a UE tem exercido pressão para uma linguagem mais precisa com relação
às negociações pós-Hong Kong sobre acordos
ambientais multilaterais e as regras da OMC.
Demanda
por regulamentação dos subsídios à pesca
Diversos negociadores
de alto nível (dentre os quais, o Secretário de Comércio
dos EUA, o Comissário para Agricultura da UE, os Ministros do Comércio
da Nova Zelândia e do Senegal, o Secretário para Agricultura
das Filipinas, o Secretário de Pesca do Brasil e um representante
do Ministro das Relações Exteriores do Chile) uniram-se
com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)
e o grupo ambientalista WWF para demandar ações urgentes
para a regulamentação dos subsídios à pesca
na OMC, numa coletiva de imprensa na quarta-feira. Diante da precária
situação da pesca global, eles alertaram os Membros para
aproveitarem da oportunidade possibilitada pelo Mandato de Doha para promover
uma liberalização comercial que salvaguarde objetivos ambientais
e sociais. A Nova Zelândia, os EUA e o Chile (todos membros do denominado
grupo "amigos do peixe", força motora das negociações)
enfatizaram a dimensão ambiental das negociações.
O Brasil, o Senegal e as Filipinas ressaltaram a necessidade de regras
efetivas de tratamento especial e diferenciado para suprir as necessidades
peculiares dos países em desenvolvimento. Enquanto não há
expectativas de que os subsídios à pesca ganhem papel de
destaque em Hong Kong - isso se obtiverem atenção - o evento
com a imprensa tinha como objetivo manter a questão sobre a mesa,
com vistas à intensificação das negociações
após a Conferência Ministerial.
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