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Semanas
de incerteza para a Rodada Doha
Os Membros da Organização Mundial do Comércio
(OMC) tentam, pelo terceiro ano consecutivo, chegar a um acordo
sobre negociações agrícolas e acesso a mercado
de bens não agrícolas (NAMA, sigla em inglês).
Mais uma vez, entretanto, é real o risco desse objetivo não
ser alcançado.
É evidente que os Membros não conseguirão alcançar
um acordo sobre modalidades antes do feriado de Páscoa, conforme
haviam previsto. Resta saber se os Membros conseguirão trabalhar
suas diferenças ao longo das próximas semanas, de
modo a permitir que os ministros cheguem a um acordo em abril.
As expectativas para a conclusão de um acordo em abril diminuíram
na semana passada, quando Membros competitivos em exportações
agrícolas reclamaram que os dados sobre consumo de alimentos
fornecidos por grandes importadores como União Européia
(UE), Japão e os Estados Unidos da América (EUA) levariam
a uma menor abertura de mercado em relação à
abertura esperada para "produtos sensíveis", como
arroz e açúcar. Argentina, Brasil, Nova Zelândia
e Uruguai esperavam esses dados há meses.
Mais um problema relacionado a dados de "produtos sensíveis"
é a proposta dos países importadores de designarem
seus produtos sensíveis com base em um nível mais
detalhado de oito dígitos do " sistema harmonizado "
de tarifas. Isso possibilitaria a proteção de uma
série de produtos sensíveis específicos
O grupo Cairns de exportadores agrícolas sugere o uso de
classificações a um nível de seis dígitos,
para o qual, em geral, existe disponibilidade de dados -muitos países
não classificam seus produtos a um nível de detalhe
de oito dígitos.
Mesmo que questões técnicas relacionadas ao consumo
doméstico de alimentos pareçam obscuras, elas são
de extrema importância. A decisão de classificar produtos
sensíveis a um nível de seis ou oito dígitos
pode resultar, segundo os países exportadores, em diferentes
ganhos de acesso a mercado.
Um delegado do grupo Cairns relatou recentemente ao Pontes que todos
os ganhos da Rodada (em acesso a mercado agrícola) serão
obtidos por meio de produtos sensíveis. O oficial de comércio
explicou que esta é a razão pela qual o grupo demandou
mais clareza sobre o que iriam ganhar em termos de abertura do mercado
agrícola antes de realizar concessões em outras áreas
das negociações.
A Argentina, juntamente com outros Membros exportadores, afirmou
precisar de mais tempo para examinar os dados com mais detalhe,
bem como para discuti-los com Canadá, UE, Japão, Noruega,
Suíça e EUA.
Apesar do sentimento de déjà vu, os Membros estão
mais bem equipados para chegarem a um acordo sobre cortes tarifários
e de subsídios em relação aos dois últimos
anos. O texto de agricultura mostrou progressos reais e necessários,
que não haviam sido realizados durante o ano passado para
uma série de questões técnicas. O texto também
forneceu uma variedade de opções específicas
para questões não resolvidas nas negociações.
Durante uma reunião do comitê para negociações
agrícolas da OMC, realizada em 10 de março, a UE afirmou
que Crawford Falconer deveria publicar uma versão revisada
de seu texto com base em suas próprias avaliações
para determinar o status das negociações e das questões
ainda não resolvidas antes do feriado de Páscoa. A
ação deveria ser seguida de um processo de negociações
horizontais com a participação de grupos com focos
individuais em agricultura e NAMA, o que facilitaria o caminho para
os ministros decidirem sobre modalidades até o final de abril.
Oficiais da UE também afirmaram que isso é necessário
para que a Rodada Doha seja concluída este ano.
Diversas delegações, entretanto, afirmaram que o que
deve conduzir as negociações é "substância",
e não prazos artificiais. Para elas, as futuras revisões
futuras do texto de agricultura devem basear-se naquilo que realmente
foi discutido e não em conjecturas. O Brasil notou, assim
como Falconer, que o progresso nas negociações é
crucial para a credibilidade do atual processo de negociações
de "Sala E".
O Ministro de Comércio da Índia, Kamal Nath, e o Comissário
para o Comércio Europeu, Peter Mandelson, esperam que os
ministros cheguem a um acordo sobre modalidades até abril.
Kamal Nath acredita que o número de questões não
resolvidas deve ser reduzido a no mínimo 15 para que os ministros
possam tomar uma decisão. Peter Mandelson afirmou, por sua
vez, que é possível haver progresso em Genebra para
que uma reunião ministerial ocorra.
Caso não haja uma reunião ministerial, a experiência
acumulada ao longo dos dois últimos anos sugere que o prazo
para modalidades deverá ser prorrogado, primeiro para o mês
de junho e depois para antes das férias de agosto da OMC.
Se, todavia não houver acordo, as negociações
poderão arrastar-se até a primavera, passar pelo período
de eleições nos EUA e seguir para 2009.
Tradução
e adaptação de artigo originalmente publicado em Bridges
Weekly Trade News Digest Vol. 12 n. 9, 12 mar 2008
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