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Conferência
da FAO: inflação dos alimentos em pauta
A Conferência Regional da Organização para Alimentação
e Agricultura (FAO, sigla em inglês) serve de instância
de debate entre os 33 países que integram a divisão
regional da América Latina e Caribe. O mais recente encontro,
ocorrido entre os dias 14 e 18 de abril em Brasília, teve
como principal foco o aumento nos preços dos alimentos.
Durante o evento,
Ministros da Agricultura, Desenvolvimento, Meio Ambiente e Recursos
Naturais, assim como outros altos funcionários e especialistas
governamentais, estudaram os desafios enfrentados pela região
e trocaram experiências e propostas. Na esteira dessas discussões,
a preocupação com a inflação dos gêneros
alimentícios gerou polêmica entre os participantes.
A questão
também foi destaque na pauta do último Fórum
Econômico Mundial, reunião de primavera do Fundo Monetário
Internacional (FMI) e Banco Mundial (BIRD). Dominique Strauss-Kahn,
Diretor-Geral do FMI, destacou que a elevação em 75%
no preço geral dos alimentos desde a virada do século
tem arrastado milhões de pessoas para a pobreza. Presente
no encontro, o Secretário-Geral da Organização
das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, qualificou a
alta como uma "bomba-relógio", capaz de criar uma
nova geração de pobres.
Dentre os diversos
fatores que influenciam o fenômeno, a produção
de biocombustíveis é o mais controverso e recebeu
críticas de diversos representantes em ambos os encontros.
As críticas fundamentam-se principalmente na concorrência
entre os biocombustíveis e os cultivos alimentícios
por recursos (terra, água, fertilizantes) e na demanda por
cereais e óleos vegetais para sua fabricação
- fatores que pressionam os preços internacionais das commodities
para cima. Jean Ziegler, relator especial da ONU pelo direito à
alimentação, acirrou a polêmica ao classificar
a produção de biocombustíveis por alguns países
como crime contra a humanidade na reunião do Fórum
Econômico Mundial.
Em contrapartida,
os países que mantêm fortes políticas para biocombustíveis
defendem-se. Condolezza Rice, em nome dos Estados Unidos da América
(EUA), Michael Mann, porta-voz de agricultura da Comissão
Européia e o Presidente Luís Inácio Lula da
Silva expressaram intenção de continuar a expandir
seus programas, pois sustentam que não há grande perigo
à oferta de alimentos pela implementação de
projetos para a matriz energética.
A FAO, contrariando
as posições radicais, mantém postura cautelosa
ao ressaltar a concorrência de fatores para o aumento nos
preços dos alimentos. Nesse sentido, a Conferência
ressaltou o potencial de desenvolvimento representado pelos biocombustíveis,
especialmente para produtores pobres. O comitê técnico
do encontro divulgou nota reconhecendo a complexidade dos temas
e a necessidade de investigações mais profundas para
maximizar as oportunidades derivadas da produção de
bioenergia, bem como minimizar possíveis riscos à
segurança alimentar e ao meio-ambiente. O corpo de representantes
enfatizou, ainda, que o direito à alimentação
precisa ser levado em conta pelos formuladores de políticas
públicas para a produção de biocombustíveis.
Um dos documentos
preparados para a Conferência retoma a promoção
da iniciativa empreendida pela FAO de criar uma Plataforma Internacional
de Bioenergia (IBEP, sigla em inglês), que tem como finalidade
oferecer os meios necessários para facilitar a transição
para a energia sustentável. O artigo também reconhece
a necessidade de maiores estudos para aproveitamento dos potenciais
da bioenergia.
Mesmo a alta
no preço traz impactos positivos, como aponta Jacques Diouf,
Diretor-Geral da FAO, em discurso proferido no encontro. Diouf defende
que a alta dos preços, apesar de ter o potencial de aumentar
a fome na América Central e Caribe, pode beneficiar a milhões
de pequenos agricultores, que vendem seus excedentes em mercados
locais. Contudo, para que possam aproveitar essas oportunidades,
precisam receber apoio por meio de políticas consistentes,
bem como investimento em capital humano e infraestrutura, ressalva
o Diretor.
Outros temas
foram objeto dos trabalhos na Conferência, como: (i) manejo
e controle de enfermidades transfonteiriças; (ii) ação
conjunta entre atores públicos e privados para o desenvolvimento
rural; e (iii) a luta contra a fome. Em relação a
esse último, discutiu-se a iniciativa América Latina
e Caribe sem fome, lançada em 2005. Foram analisados os resultados
alcançados e estipuladas novas metas e propostas. O projeto
comemorou a redução na porcentagem de subnutridos
de 13% para 10% entre 2002 e 2004, o que significa que mais de 7
milhões de pessoas deixam de viver com fome. Ainda assim,
o problema continua a afetar 52,4 milhões de pessoas, das
quais 9 milhões são crianças abaixo de cinco
anos. A nova meta para eliminação da desnutrição
infantil foi estabelecida para 2015.
O cenário
atual da agricultura e segurança alimentar apresenta grandes
desafios, que vão desde o crescimento populacional ao aquecimento
global, como identifica Diouf em seu discurso. O número de
pessoas que sofrem com a fome bate os 862 milhões em todo
o mundo, marca que pode aumentar frente à elevação
nos preços dos alimentos. Diante disso, defende ele, as políticas
agrícolas e alimentares precisam ser revistas a fim de responder
aos novos desafios.
Reportagem Equipe Pontes
Fontes consultadas:
FAO - Oficina
Regional para América Latina e Caribe. El alza Del precio
de los alimentos impacta fuertemente en América Latina y
el Caribe. (15/04/2008). Disponível em: <http://www.rlc.fao.org/es/prensa/coms/2008/27.htm>.
Acesso em: 19 abr. 2008.
FAO - Oficina
Regional para América Latina e Caribe. Tiempo de Actuar
- Discurso do Diretor-Geral da FAO Jacques Diouf. (13/04/2008).
Disponível em: <http://www.rlc.fao.org/es/prensa/opinion/art01.swf>.
Acesso em: 19 abr. 2008.
FAO - Oficina
Regional para América Latina e Caribe. Oportunidades y
Desafios de la producción de biocombustibles para la seguridad
alimentaria y del medio ambiente en América Latina y el Caribe.
(04/2008). Disponível em: <http://www.rlc.fao.org/es/prensa/opinion/art01.swf>.
Acesso em: 19 abr. 2008.
FAO. Growing
demand on agriculture and rising prices of commodities. (14/02/2008).
Disponível em: <http://www.fao.org/es/esc/common/ecg/538/en/RisingPricesIFAD.pdf>.
Acesso em: 11 abr. 2008.
Valor Econômico.
Bird e FMI buscam soluções para falta de comida.
(14/04/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=443813>.
Acesso em: 16 abr. 2008.
O Estado de
São Paulo. Bird ataca subsídio a etanol dos EUA.
(14/04/2008). Disponível em: <http://www.estado.com.br/editorias/2008/04/14/eco-1.93.4.20080414.1.1.xml>.
Acesso em: 16 abr. 2008.
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