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Alta
do trigo preocupa governo brasileiro
Em clara demonstração de preocupação
com a pressão inflacionária gerada pelos altos preços
do trigo nos mercados internacionais, o governo brasileiro anunciou,
na última semana, um plano para estimular o plantio do cereal
na próxima safra. Pesaram na decisão considerações
de segurança alimentar, uma vez que o Brasil, uma das maiores
potências agrícolas do mundo, sofre riscos de desabastecimento
por ser dependente da importação de 70% do trigo que
consome internamente.
Os principais
pontos do programa alteram políticas de crédito, preço
mínimo e seguro. Houve a criação de uma linha
de crédito especial de R$1,2 bilhão para financiar
o carregamento da próxima safra e foi concedido um prazo
de 180 dias às indústrias para pagar suas compras
a juros subsidiados de 6,75% ao ano. Os limites individuais de crédito
foram ampliados de R$300 mil para R$400 mil e os preços mínimos
foram reajustados em 20% - de R$24 para R$28,80 por saca (região
sul) e para R$32,40 nas demais regiões. Há também
a promessa de subvenção de até 60% dos prêmios
pagos pelos produtores nas apólices de seguro rural. A meta
é incrementar a atual produção de 3,8 para
4,7 toneladas, fazendo frente à demanda pelo grão,
que ultrapassa a barreira das 10 toneladas.
A medida veio
em um momento no qual a indústria de pães e massas
enfrenta a pior crise dos 20 últimos anos, com constantes
aumentos de preços - o pão francês, que subiu
cerca de 20% nos últimos 12 meses, sofrerá novos reajustes
de 12% durante o mês de abril. Tal aumento no preço
dos alimentos, cujo impacto sobre os índices de inflação
é significativo, é reflexo da disparada dos preços
do trigo e da farinha no mercado internacional. Em um ano, o preço
do trigo dobrou, ultrapassando os R$800 por tonelada e impulsionado
pelo aumento da demanda mundial e pela diminuição
dos estoques. Contudo, os efeitos da medida sobre os preços
não serão imediatos, uma vez que a safra brasileira
chegará só em novembro.
O Brasil, que
no passado foi auto-suficiente na produção de trigo,
optou pela importação do grão há duas
décadas, estimulado por preços sensivelmente mais
baixos no mercado internacional. Desde então, recebe a quase
totalidade do trigo importado de apenas um fornecedor, a Argentina.
Contudo, os recentes problemas de abastecimento enfrentados pelo
país vizinho têm limitado o envio de trigo ao Brasil,
o que torna a crise mais acentuada.
Com o intuito
de limitar o aumento dos preços internos, o governo argentino
proibiu, em março de 2007, as exportações do
produto. Desde então, tal proibição foi suspensa
em apenas duas ocasiões, por períodos curtos. Em um
deles, 28 de janeiro, foram definidas novas restrições,
como um limite de exportação de 400 mil toneladas
por mês e 12 mil por dia por empresa exportadora. Apesar dos
insistentes apelos, o lado brasileiro não conseguiu garantir
o fornecimento das quantidades almejadas. O fornecimento foi novamente
suspenso, sem previsão de normalização. "Nossa
única prioridade é garantir o pão argentino",
afirmou recentemente Fernando Fraguío, Secretário
da indústria argentina.
Os governos
dos dois países não são os únicos implicados
nessa questão, que envolve também a sociedade civil.
O trigo foi tema importante na recente batalha travada pelos produtores
rurais argentinos contra a Presidente Cristina Kirchner. Em março,
os ruralistas realizaram um boicote agropecuário contra o
aumento dos impostos sobre as exportações agrícolas,
bloqueando por 21 dias as principais estradas daquele país.
Dentre as promessas do governo para acalmar os produtores figurava
justamente a reabertura das exportações de trigo.
Apesar de seu objetivo declarado de reduzir os preços internos
e garantir o abastecimento de alimentos, a política de restrição
às exportações acabou por gerar o efeito contrário,
uma vez que o fornecimento de carne e laticínios foi interrompido.
Os representantes
dos moinhos brasileiros, por sua vez, criticam a dependência
do Brasil do trigo argentino e questionam a confiabilidade desse
fornecedor. Chegou-se até a afirmar que a Argentina teria
quantidades suficientes de trigo em estoque, estrategicamente reservadas
para uma eventual troca por petróleo venezuelano ou gás
boliviano - em clara alusão à crise energética
que enfrenta o país neste momento. Os representantes criticam,
ainda, a política tarifária argentina, que onera mais
pesadamente o trigo do que a farinha, num esforço de incentivar
a exportação do produto processado, com maior valor
agregado.
Em fevereiro
passado, o governo brasileiro atendeu parcialmente à solicitação
dos moinhos e isentou da aplicação da Tarifa Externa
Comum (TEC) do Mercosul a importação de 1 milhão
de toneladas de trigo proveniente de parceiros exteriores ao bloco.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria
do Trigo (Abitrigo), seria necessário liberar 4 milhões
de toneladas para suprir a demanda brasileira, razão pela
qual a organização continua a defender o aumento dos
volumes isentos. De qualquer modo, ainda que não incidam
os 10% de alíquota da TEC, os aumentos nos preços
são esperados, uma vez que o trigo importado de fornecedores
do hemisfério norte chega ao porto de Santos com um preço
superior - US$ 460/tonelada, face a US$400/tonelada do trigo argentino.
Reportagem Equipe
Pontes
Fontes Consultadas:
Folha de São
Paulo. Sem trigo argentino, pão fica mais caro (23/04/08).
Folha de São
Paulo. Governo infla crédito para tentar evitar falta
de trigo (18/03/08). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=445958
>. Acesso em: 23 abr. 08.
O Estado de
São Paulo. Governo tenta estimular o plantio de trigo
(18/04/08). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=445517>.
Acesso em: 23 abr. 08.
O Estado de
São Paulo. Pães, massas e biscoitos vão
subir até 15% no varejo (17/04/08). Disponível
em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=445503>.
Acesso em: 23 abr. 08.
Valor Econômico.
Brasil lança plano de apoio ao trigo (18/04/08).
Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=445654>.
Acesso em: 23 abr. 08.
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