Lições do desempenho das exportações brasileiras no mercado argentino

18 December 2014

A partir de 2010, quando a participação das exportações de produtos básicos do Brasil superou a parcela dos manufaturados – o que não ocorria desde 1979 –, intensificou-se a discussão sobre os fatores que afetam a competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Nesse contexto, além dos fatores já conhecidos – como a política cambial, os problemas de infraestrutura (custos de transporte e energia) e de tributação (isenção apenas parcial dos impostos incidentes sobre os produtos exportados) –, acentuaram-se as críticas à política comercial. Em grande medida, as queixas concentram-se nas elevadas tarifas aduaneiras aplicadas sobre bens de capital e bens intermediários, bem como na necessidade de firmar novos tratados comerciais para ampliar o acesso aos principais mercados externos.

 

Atualmente, existe uma grande preocupação com a perda de competitividade do produto exportado nos principais mercados externos, devido aos acordos comerciais já em vigor e outros em negociação. O argumento central é que os bens dos países que assinam tratados de comércio passam a gozar de livre acesso ao mercado dos países sócios, enquanto os produtos brasileiros continuarão a sofrer a incidência das tarifas aduaneiras. Esse tratamento tarifário desfavorável tem contribuído para a perda de dinamismo das exportações brasileiras de manufaturados.

 

Diante desse quadro, o objetivo deste artigo é analisar, no período 2000-2013, o desempenho das exportações brasileiras no mercado argentino. Neste, o produto brasileiro desfruta de duas vantagens. Primeiramente, o tratamento preferencial decorrente do Mercado Comum do Sul (Mercosul), com base no qual os produtos brasileiros são isentos da aplicação de tarifas aduaneiras, em contraste com os demais competidores, que pagam a tarifa integral. A segunda diz respeito à localização geográfica, isto é, à curta distância que separa os principais portos de Brasil e Argentina, propiciando menores despesas de frete e seguro. Portanto, é razoável supor que, no mercado argentino, o Brasil tenha obtido um desempenho mais favorável no período analisado.

 

Para realizar tal avaliação, o Gráfico 1 apresenta a participação das exportações brasileiras destinadas ao mercado argentino no total das vendas externas do Brasil. De início, é possível notar que a parcela das exportações brasileiras cai de 11,3%, em 2000, para 3,9%, em 2002. Em grande medida, isso ocorre devido à queda na atividade econômica da Argentina, resultante do colapso do Plano de Conversibilidade. No entanto, a partir de 2003, com a recuperação da economia argentina, a participação brasileira aumenta gradualmente: atinge 9% em 2007 e mantém esse patamar nos anos seguintes, com pequenas oscilações – à exceção de 2012 e 2013, quando sofre uma pequena queda. Assim, desde 2007, o mercado argentino passou a consumir entre 8% e 9% das exportações brasileiras, mas sem retornar ao nível de 11,3% verificado em 2000.

 

 

No entanto, um olhar para a participação brasileira nas importações totais da Argentina sugere um cenário menos favorável (ver Gráfico 2). Apesar do aumento da parcela brasileira de 25,5%, em 2000, para 35,5%, em 2005, os anos seguintes registraram uma tendência decrescente: alcançaram 26,4% em 2013, patamar um pouco acima do obtido em 2000.

 

 

Portanto, os indicadores apresentados em ambos os gráficos não revelam uma trajetória favorável das exportações brasileiras destinadas ao mercado argentino, apesar das vantagens citadas anteriormente.

 

Para situar o desempenho do Brasil em meio aos demais países que exportam para a Argentina, a Tabela 1 indica a evolução da participação dos 10 principais países exportadores em 2000, 2005, 2010 e 2013. Nota-se que, entre 2000 e 2013, todos os países listados perdem participação nas importações argentinas, à exceção de Alemanha, Brasil e México. Notável é o ganho obtido pela China, cuja parcela nas importações argentinas passa de 4,6%, em 2000, para 15,4%, em 2013.

 

 

Apesar de ter apresentado, em 2013, uma participação próxima daquela registrada em 2000, o Brasil continua sendo o principal fornecedor externo no mercado argentino, permanecendo em primeiro lugar em todos os anos. A queda na parcela dos Estados Unidos é acentuada, passando de 18,9%, em 2000, para 10,9%, em 2013. Essa redução foi acompanhada da passagem dos Estados Unidos, a partir de 2010, da segunda para a terceira posição entre os principais exportadores. Por sua vez, as exportações da China registraram um aumento significativo em sua participação no mercado argentino: de 4,7% em 2005 para 13,6% em 2010, passando da terceira à segunda posição entre os principais exportadores.

 

A princípio, o aumento da participação chinesa nas importações argentinas deve ter deslocado os demais países exportadores, principalmente aqueles que vendem produtos manufaturados intensivos em mão de obra – como é o caso do Brasil. De fato, as exportações brasileiras para a Argentina são muito mais concentradas em produtos manufaturados, atingindo 88,2%, em 2013 – conforme ilustrado pela Tabela 2, que apresenta os bens agrupados nos códigos 5 a 8 da Classificação Uniforme de Comércio Internacional (CUCI). Por outro lado, a participação desses produtos é de apenas 36,4% nas exportações totais.

 

 

A Tabela 3 apresenta a participação brasileira nas importações argentinas por setor da CUCI nos anos selecionados. Nota-se que, em 2005, a parcela brasileira aumenta em todos os setores. A partir de então, começa a diminuir – à exceção de matérias-primas não comestíveis em 2010, e de bebidas e fumo em 2013.

 

 

O aumento generalizado da participação brasileira nas importações argentinas em 2005, e as quedas registradas em 2010 e 2013 podem ser explicadas pela política cambial. Segundo estimativas disponíveis no IPEADATA, no período 2000-2005, o índice da taxa de câmbio real da moeda brasileira em relação a uma cesta de moedas atinge 123, em contraste com o índice de 89 no período 2005-2010 – o que corresponde a uma valorização de 28% – e de 84 no período 2010-2013. Assim, uma taxa de câmbio mais desvalorizada ampliou a parcela do Brasil no mercado argentino em 2005, enquanto os outros principais exportadores apresentaram uma queda – exceto China e México. Em 2010 e 2013, a forte valorização real da moeda brasileira prejudicou as exportações.

 

A importância de uma taxa de câmbio desvalorizada pode ser destacada pelo aumento da parcela brasileira nas importações argentinas de bens de capital: de 16,8%, em 2000, para 26,9%, em 2005, diante da tarifa nula aplicada pelo governo argentino para todos os exportadores – ou seja, os bens de capital produzidos no Brasil ganharam competitividade mesmo sem tarifa preferencial.

 

Em resumo, o desempenho das exportações brasileiras no mercado argentino no período 2000-2013, em que desfruta de uma tarifa preferencial plena e menor custo de transporte em relação aos demais países competidores, está associada à taxa de câmbio real.

 

Diante da forte competitividade da China em produtos manufaturados, é possível que uma taxa de câmbio mais desvalorizada não seja suficiente para evitar a perda brasileira no mercado argentino. Mas esta certamente seria menor.

 

Esse resultado indica que, para propiciar um maior dinamismo nas exportações brasileiras de manufaturados, é necessário uma política de exportação abrangente, que priorize inicialmente o papel da política cambial. Medidas isoladas, tais como novos acordos comerciais e reformas estruturais podem não ser suficientes, ainda que sejam importantes.

 

* Honorio Kume é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. E-mail: honorio.kume@gmail.com

This article is published under
18 December 2014
ACTA e a agenda plurilateral de aplicação: gênese e consequências ICTSD – dezembro 2014 O Acordo de Comércio Antifalsificação (ACTA, sigla em inglês) é o esforço mais importante no estabelecimento de...
Share: 
18 December 2014
Argentina e Brasil são os maiores sócios do Mercosul e possuem um longo histórico de relacionamento. Este artigo busca compreender as raízes da deterioração das relações bilaterais para pensar (im)possibilidades de convergência na agenda dos dois países.
Share: