Mercado de bens e serviços ambientais: desafios e oportunidades para a América Latina

14 September 2010

Este artigo aborda o panorama do mercado de bens e serviços ambientais (BSA) no mundo, na América Latina e no Brasil, bem como a experiência do estado do Espírito Santo (Brasil) na realização de um estudo pioneiro sobre a oferta de bens e serviços ambientais. Além disso, esta análise buscará identificar os principais pontos críticos e oportunidades deste setor.
 
Segundo a Environmental Business International Inc.[i], o mercado ambiental mundial movimentou US$ 772 bilhões em 2009 e está concentrado nos países desenvolvidos (PDs) – sendo os Estados Unidos da América (EUA) responsáveis por 37% deste mercado, seguidos da Europa ocidental, com 27%, e do Japão, com 12%. A participação da América Latina corresponde a 4%, com valor similar ao da China. O Brasil domina o mercado latino-americano de BSA, uma vez que responde por 47% (o correspondente a US$ 15,9 bilhões). O México encontra-se em segundo lugar, com 20% do mercado ambiental da América Latina.
 
A base de cálculo para projetar o volume do mercado ambiental considera a classificação tradicional de BSA. Posto que esta tipologia é fundamentada em bens voltados à solução de problemas ambientais e não inclui produtos e serviços de interesse para países em desenvolvimento (PEDs) e megadiversos. Segundo a Environmental Business International Inc, existem três categorias no mercado de BSA: equipamentos, dentre os quais se destacam produtos químicos e equipamentos para tratamento de água; serviços, principalmente aqueles relacionados com gestão de resíduos; e recursos, setor que envolve a rede de abastecimento de água e a produção de energias limpas. O segmento de serviços é o maior em termos de montante: em 2009, o setor movimentou US$ 142,5 bilhões.

Em termos de taxas de crescimento, o mercado ambiental apresentou uma grande variação nestes últimos anos, chegando a taxas negativas em 2008 e 2009 para alguns países ou regiões. Este resultado pode ser explicado pela influência da crise econômica de setembro de 2008. Em geral, observam-se taxas de crescimento menores nos PDs, comparativamente aos PEDs. Essa constatação revela uma saturação do mercado ambiental nos PDs, o que reforça o interesse desses países na abertura comercial para outras regiões. A América Latina apresentou taxas superiores a 10%, superando a Ásia em 2008, porém a região teve uma queda brutal de seu crescimento em 2009, como reflexo da crise econômica mundial. A alta taxa de crescimento observada nos PEDs mostra um mercado em plena expansão. Dados sobre o volume do comércio de produtos e tecnologias amigáveis com o clima mostram um crescimento similar ao exposto aqui, com taxas de crescimento anual entre 7 e 14%[ii], tendo um impacto positivo nos projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) por meio do aumento na transferência de tecnologia de produtos relacionados à produção de energias renováveis.

[i] Ver: EBI Inc. Global Environmental Market. San Diego: Environmental Business International Inc., 2010.

[ii] Ver: World Bank. International Trade and Climate Change: economic, legal and institutional perspective. s.l. : World Bank, 2008.

No Brasil, o mercado ambiental cresceu acentuadamente a partir de 2000, à exceção de uma queda em 2009, em decorrência dos impactos da crise econômica de 2008 (ver Figura 1 no arquivo PDF). O gráfico abaixo mostra nitidamente o crescimento do referido mercado, o qual passou de US$ 3.770 a 17.207 bilhões.

O balanço comercial para o ano de 2007 no mercado ambiental foi bastante favorável aos PDs (ver Tabela 1 no aqruivo PDF): tanto a Ásia como a América Latina aparecem como importadores líquidos de BSA. Por meio desse dado, é possível compreender o posicionamento dos PDs na Organização Mundial do Comércio (OMC), isto é, pressionar pela liberalização do comércio de BSA, a fim de ampliar o acesso a mercado para a sua já consolidada indústria ambiental.

Um estudo elaborado pela Câmara Brasil-Alemanha sustentou que a Alemanha investiu US$ 40 bilhões no setor de energias renováveis em 2007, enquanto que, no Brasil, esse montante totalizou US$ 6,7 bilhões[1]. Esse panorama vai ao encontro das ações governamentais de estimular a produção do etanol e de biodiesel, e a falta de priorização para o setor de saneamento e gestão de resíduos sólidos no país. O referido estudo também apontou para a dependência do Brasil em relação a tecnologias sustentáveis estrangeiras, bem como a falta de inovação tecnológica no país e a escassa cooperação em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) entre empresas do mesmo setor e entre estas e instituições nacionais ou internacionais.
 
Conhecendo o mercado ambiental: a experiência do estado do Espírito Santo
 
O estado do Espírito Santo (ES) realizou a pioneira Pesquisa sobre a Oferta de Bens e Serviços Ambientais, que faz parte do Plano Estratégico de Negócios Ambientais Amigáveis com o Clima[2]. O estudo concluiu que o volume do mercado ambiental em 2009 chegou a movimentar R$ 1,2 bilhão (1,86% do Produto Interno Bruto do estado), sendo 80% em serviços ambientais, com participação maior do setor de resíduos sólidos. A pesquisa também apontou para a importância das micro e pequenas empresas no peso relativo em termos de número de empresas, enquanto que as empresas de médio e grande porte possuem um peso relativo maior no faturamento e na geração de emprego deste setor ambiental.
 
O tipo de BSA ofertado pelas empresas contempladas na pesquisa resultou na identificação de 148 produtos e serviços, agrupados em diferentes categorias, conforme a classificação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)[3]. As áreas que mais se destacaram são gestão de resíduos sólidos; consultoria e educação ambiental; materiais recicláveis; e monitoramento e avaliação ambiental.
 
Os principais pontos críticos identificados na referida pesquisa foram: i) carga tributária elevada; ii) licenciamento ambiental e fiscalização; iii) acesso a linhas de créditos específicas para a área ambiental; iv) desconhecimento sobre o tema de BSA, tal como conceitos e classificação em conformidade com os códigos nacionais de atividades econômicas (códigos CNAE); v) falta de organização do setor; vi) acesso a tecnologias; e vii) aspectos culturais e de mercado em geral, como a dificuldade das empresas investirem em tecnologias limpas ou em eficiência energética relacionadas a mudança climática ou preservação ambiental.
 
Muitos desses pontos críticos também foram apontados em um estudo similar realizado pela Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), cujo objetivo foi estudar o mercado ambiental do ponto de vista da demanda e o nível de oferta que Argentina, Chile, Colômbia e México dispunham para suprir essa demanda. Uma das conclusões principais desse estudo é a necessidade de revisar a estrutura institucional e o marco regulatório existentes, com a finalidade de criar um setor de empresas que ofereçam BSA capazes de responder à real demanda ambiental de acordo com o porte das empresas[4]. Esse desafio também é apontado pela Pesquisa de Oferta de BSA realizado no ES[5]. Dessa forma, pode-se concluir que o mercado de BSA no ES é similar a outras economias da América Latina, dependente de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento deste setor, bem como a falta de organização institucional deste.
 
Tanto nos estudos da Cepal como na pesquisa realizada no ES, são evidentes os desafios impostos à América Latina com relação ao tema de BSA. Ao mesmo tempo, tais obstáculos transformam-se em grandes oportunidades de negócios ambientais, fomentando o mercado verde. Ainda, é possível destacar outras oportunidades para a América Latina, tais como o estímulo ao desenvolvimento local, a atração de investimentos e o maior desenvolvimento tecnológico, o que repercute na independência de tecnologias importadas. 
 
Considerações finais
 
O panorama mundial do mercado ambiental apresentado neste artigo mostra um nicho de mercado promissor – principalmente para países como o Brasil. Todavia, o setor de BSA carece de informações mais precisas sobre a real demanda e oferta nos países latinos, bem como de estudos sistemáticos que forneçam indicadores de desempenho do mercado ambiental.
 
Nesse sentido, a pesquisa realizada no ES serve de subsídio para conhecer melhor o perfil das empresas que trabalham no setor de BSA, na medida em que identifica pontos críticos e oportunidades em comum com os demais países da região. Fica clara a necessidade de organizar o setor de BSA e traçar políticas públicas que fomentem este mercado na América Latina para poder estabelecer metas precisas de liberalização comercial de BSA no âmbito da OMC.
 
 
* Especialista em gestão ambiental e Mestre em Propriedade Intelectual e Inovação. Atua como Consultora e Pesquisadora do IDEIAS.
** Arquiteta especialista em gestão de projetos na área de resíduos sólidos e diretora-presidente do IDEIAS.
 

[1] Ver: AHK, Roland Berger Strategy Consultants Green Technologies in Brazil: An Overview of the Sustainability Market / ed.  Jutta Scherer JS textworks. - 2009.

[2] O Plano Estratégico de Negócios Ambientais Amigáveis com o Clima no Espírito Santo é uma iniciativa do Instituto de desenvolvimento Integrado para Ações Sociais (IDEIAS); com o apoio institucional da Agência de Desenvolvimento em Rede do Espírito Santo (ADERES), da Secretaria de Estado de Desenvolvimento (SEDES) e de diversos parceiros governamentais. Para mais informações, ver: .

[3] A organização classifica bens e serviços ambientais em três grupos: Manejo da Poluição; Tecnologias e Produtos Limpos; e Manejo de Recursos.

[4] Ver: CEPAL & GTZ Project Document: SMEs in the environmental goods and services market: identifying areas of opportunity, policies and instruments. Case studies: Argentina, Chile, Colombia and Mexico. United Nations, 2006.

[5] Nesse contexto, o Instituto IDEIAS empreende, desde o início de setembro, a Pesquisa de Demanda por BSA na cadeia produtiva de rochas ornamentais no ES.

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