O mercado do vestuário nos EUA: última chamada para a América Latina?

10 January 2007

O comportamento do mercado importador de vestuário dos EUA foi condizente com as previsões da maioria dos experts[1]. Países asiáticos com mão-de-obra abundante, como China, Bangladesh, Índia, Indonésia, Paquistão e Vietnã, beneficiaram-se do desmantelamento das quotas de importação impostas pelos EUA. Desta maneira, a China converteu-se no principal provedor de vestuário dos EUA, com quase 34% do mercado[2]. Ademais, a partir da eliminação das quotas, as importações estadunidenses de vestuário provenientes do Paquistão e da Índia aumentaram cerca de 15% (em volume). Tais países passaram a ser o terceiro e quinto provedor mais importante, respectivamente. Indonésia e Vietnã destacaram-se também pelo acelerado crescimento nas importações de vestuário dos EUA com taxas maiores do que 20%.

 

Por outro lado, quem mais sofre com as exportações asiáticas são claramente os produtores nacionais dos EUA, África e da Bacia do Caribe (CBI). No caso dos EUA, estima-se que o sub-setor de vestuário perdeu cerca de 347.000 empregos entre o período de 1999 a 2004, o que representa mais da metade dos empregos que esse setor gerava no início do período considerado. No caso da África e da CBI, a importância das importações de vestuário dos EUA caiu em ambas as regiões após o desmantelamento das quotas e como a quota de mercado da África caiu para 0.7 e da CBI para 7.5%.

 

A reação dos EUA

 

Dado o alto crescimento que tiveram as importações de vestuário provenientes da China para os EUA em 2005 – que foi mais de 51%[3] (medido em valor) ou quase 44%[4] (em volume) – os EUA optaram por impor, entre maio e agosto de 2005, 10 medidas de salvaguarda a confecções provenientes do gigante asiático. Tais medidas afetaram vestimentas como camisetas, blusas, calças e roupa íntima. Além do mais, oito destas salvaguardas resultaram em embargos, com os quais se eliminou a possibilidade de importação de tais vestimentas até o dia 31 de dezembro de 2005[5].

 

Objetivando proteger seu setor produtivo, tornar o comércio de vestuário com a China mais previsível e evitar um conflito comercial, os EUA e a China assinaram um memorando de entendimento relativo ao comércio de produtos têxteis e de vestuário (TYV) no dia 8 de novembro de 2005. Este acordo entrou em vigor em janeiro de 2006 e expira em dezembro de 2008. O mesmo estabelece 21 contingentes para 34 categorias de produtos TYV, incluindo os que estavam sujeitos a salvaguardas em 2005. Estima-se que o Memorando cubra 40% do volume das importações de TYV que os EUA realizaram da China em 2005. É importante lembrar também que os volumes dos contingentes para a maioria dos principais produtos de importação listados no Memorando são maiores do que os outorgados pelo ATV e pelas salvaguardas. Da mesma forma, as taxas de crescimento previstas no Memorando para tais contingentes são maiores do que aquelas oferecidas nas salvaguardas.

 

Países CBERA: preços altos, preços baixos…

 

A raiz da outorga de uma série de preferências tarifárias unilaterais tem início com a promulgação do Caribbean Basin Economic Recovery Act (CBERA) em 1983, por parte do governo estadunidense a 24 países da Bacia do Caribe[6], quando estes se converteram em importantes provedores de produtos da confecção para o mercado dos EUA. Em 1989, os beneficiários da CBERA foram responsáveis por cerca de 8% das importações de vestuário dos EUA. Tais países aumentaram rapidamente sua participação, superando todos os demais países e regiões até atingir sua quota máxima em 1997, com cerca de 18% do mercado. Desta mesma forma, o México vivenciou um vertiginoso crescimento em suas exportações de vestuário para os EUA, graças à proteção que lhe foi outorgada pelo Acordo de Livre Comércio de América do Norte (NAFTA) promulgado em 1994. Em 1999, o México foi responsável por quase 15% das importações neste setor.

 

De acordo com a mudança de cenário, os países da Bacia do Caribe lutaram para obter um tratamento similar àquele recebido pelo México graças ao NAFTA. Em 2000, conseguiram o que haviam reivindicado com a aprovação da lei Caribbean Basin Trade Parthership (CBTPA) pelos EUA. Em 2003, os EUA decidiram iniciar as negociações para a assinatura de um acordo comercial com os principais beneficiários da CBTPA: Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua. Posteriormente, em 2005, a República Dominicana somou-se às negociações, formando assim o CAFTADR (sigla em inglês). Este Acordo já foi assinado e entrou em vigor para todos os países, exceto para Costa Rica e a para República Dominicana. O CAFTA-DR prevê uma verdadeira flexibilização em matéria de regras de origem, que até então não incentivava o uso de insumos locais. No caso particular da Nicarágua, conseguiu-se uma maior margem de utilização de insumos extra-regionais por um período limitado.

 

No caso dos países do CBERA e do México, a experiência mostra que, dadas as diferenças em seus custos relativos, países dotados de mão-de-obra mais qualificada – como Costa Rica, México e República Dominicana – optaram por especializar-se na produção de vestimentas de maior valor agregado, utilizando insumos de custo mais alto procedentes dos EUA. Ozden[7] afirma que de 1989 a 2005 os preços relativos das vestimentas importadas pelos EUA da Costa Rica e da República Dominicana aumentaram de forma regular de 0.91 a 1.06; a mesma tendência servindo para o caso do México. Com isso, busca-se abastecer um mercado mais exigente e aproveitar os benefícios tarifários que se desprendem da utilização de têxteis estadunidenses, dada a alta taxa de utilização dos mesmos.

 

Por outro lado, países como Guatemala, Honduras e Nicarágua, que contam com maior oferta de mão-de-obra de baixa qualidade, apostam em uma estratégia de preços baixos utilizando insumos de origem asiática, daí a menor utilização das preferências com respeito ao restante do CBERA. Isto pode ser explicado pelo fato da maior parte do investimento no setor de confecção na Guatemala e na Nicarágua serem de origem asiática, enquanto no caso da Costa Rica e da República Dominicana, os investimentos são de origem estadunidense.

 

CAN opta por diferenciação e aproveitamento de preferências

 

Por outro lado, as exportações dos atuais membros Plenos da Comunidade Andina (Bolívia, Colômbia, Equador e Peru) gozam, desde 1991, de acesso preferencial ao mercado dos EUA graças à lei Andean Trade Preference. Tal iniciativa de caráter unilateral foi ampliada com a Lei de Comércio de 2002 e agora é conhecida como Andean Trade Promotion and Drug Eradication Act (ATPDEA, sigla em inglês). De maneira similar aos países de América Central, em 2004 os EUA decidiram converter as preferências tarifárias unilaterais sob a ATPDEA, que expira em dezembro de 2006, em um acordo comercial. Peru e Colômbia já finalizaram as negociações e os respectivos acordos bilaterais estão à espera do trâmite legislativo na Colômbia e nos EUA. Assim como o CAFTA-DR, os acordos bilaterais da Colômbia e do Peru com os EUA melhoram as condições de acesso, ao permitir maior conteúdo regional nas vestimentas.

 

Por outro lado, a diferença entre os andinos e a América Central é que o CBERA não tem data de vencimento, enquanto a CBTPA expira em 2008, ou seja, a América Central tem um horizonte comercial mais previsível. No caso da CAN, os principais exportadores de vestimentas são a Colômbia e o Peru. De 2005 a agosto de 2006, estes países foram responsáveis por 39% e 57% das importações de vestimentas da CAN para os EUA. Desde a eliminação das quotas do ATV, a Colômbia viu cair a importância do valor das importações de vestimentas para os EUA. No que diz respeito a 2006, a queda foi de 14%. Contrariamente a este fato, o valor das importações de vestuário para os EUA provenientes do Peru aumentou de maneira consistente a partir de 2002, sendo de quase 18% em 2005. Isto poderia ser fruto de duas tendências: primeiro, uma maior taxa de utilização das preferências tarifárias; e, segundo, uma maior diferenciação com respeito aos produtos elaborados por seus competidores asiáticos. Exemplo disto é que de janeiro de 2005 a agosto de 2006, o valor das importações de vestuário provenientes do Peru foi quase total (98%) sob a ATPDEA. No caso da Colômbia, a percentagem foi muita menor (81%). Antes de 2003, o uso das preferências por ambos os países foi muito menor, já que a ATPDEA agregou TYV importantes.

 

Por outro lado, o Peru mostrou-se mais especializado em relação a vestimentas nas quais a China não é competitiva, e, portanto, conseguiu evitar o impacto que significaria o desmantelamento das quotas restritivas dos EUA para países asiáticos.

 

Se estimarmos a similitude das importações que realizam os EUA dos países beneficiários da CBERA e da CAN, no que se refere às que realiza da China, notamos que no caso do Peru, a média é muito menor, o que lhe permitiu expandir sua quota de mercado[8]. O caso de países como Colômbia, Guatemala ou México é muito diferente; a similitude em sua oferta de vestuário exportável para os EUA em relação à China faz com que haja perda de quotas de mercado frente ao gigante asiático. Nossos resultados são consistentes com outros que explicam o sucesso peruano com base em sua especialização na exportação de produtos diferenciados, como tecidos de ponto com alto valor agregado[9].

 

Reflexão final

 

O setor de confecção latino-americano encontra-se ante um enorme desafio após a implementação do ATV. A mudança que se espera no cenário mundial terá ganhadores e perdedores. O Memorando assinado entre os EUA e China poderia dar um pouco de fôlego para que os países da ALC possam reconsiderar ou fortalecer suas estratégias, antes que a concorrência seja novamente intensificada. A esperança é que os países da América Latina consigam criar um ambiente competitivo mediante o desenvolvimento de estratégias com uma visão integral e de alcance regional que incluam, entre outras coisas, incentivos, alianças estratégicas e um manejo logístico adequado, com o objetivo de conseguir maiores encadeamentos locais, incremento de valor agregado e diferenciação em suas exportações de vestuário.

 

* Greivin Hernández González é pesquisador do Centro Internacional de Política Econômica da Universidade Nacional Autônoma da Costa Rica.

** Rafael Sánchez Meza é pesquisador do Centro Internacional de Política Econômica da Universidade Nacional Autônoma da Costa Rica.

 

Artigo publicado originalmente em PUENTES Entre el comercio y el desarrollo sostenible, v. VII n. 4, agosto – septiembre 2006, p. 14


[1] Ver: Nordas, Kyvik, Hildegunn. (2004). The Global Textile and Clothing Industry post the Agreement on Textiles and Clothing. World Trade Organization: Geneva.

[2] Medido em volume como metros quadrados equivalentes tomando em conta a informação de janeiro a agosto de 2006.

[3] Cifras estimadas com base em estatísticas do USITC. (2006). Interactive Tariff and Trade DataWeb. Base de dados online.

http://dataweb.usitc.gov/

[4] Cifras estimadas com base em estatísticas de OTEXA. (2006). Trade Data - Ou.S. Imports and Exports of Textiles and Apparel. Base de dados em linha. http://otexa.ita.doc.gov/msrpoint.htm

[5] USITC. (2006). The Year in Trade 2005 Operation of the Trade Agreements Program 57th Report. Washington DC.

[6] Antigua, Aruba, Bahamas, Barbados, Belize, Costa Rica, Dominica, El Salvador, Grenada, Guatemala, Guyana, Haiti, Honduras, Ilhas Virgens Britânicas, Jamaica, Montserrat, Antilhas Holandesas, Nicaragua, Panamá, República Dominicana, San Cristobal e Nieves, Santa Lucia, São Vicente e as Granadinas, e Trinidad e Tobago.

[7] Ozden, Ç. (2006). Caribbean Basin Initiative Beneficiary Countries and the Apparel Sector: Same Preferences, Different Responses. Washington DC: Banco Mundial.

[8] Para 2006 o coeficiente de correlação das importações de vestuário dos EUA provenientes da China e do Peru foi 0.18. Por outro lado, países que experimentaram uma forte queda em sua quota de participação em tal mercado tiveram um coeficiente (e por tanto uma similitude) muito maior com a China. Este foi o caso da Guatemala (0.27), da Colômbia (0.26) e do México (0.37).

[9] Ver: CAF. (2006). América Latina en el comercio global: Ganando mercados. Caracas.

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